segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Amélia

O frio da noite sempre acaba por amenizar o frio das águas. Não sei se o fenômeno se dá por contraste ou estímulo. Quando pequena eu via a piscina de casa como um grande armazém de calor. Ridícula, passava o dia a me envergonhar com sua água gelada para, de noite, quando as amigas já tinham ido embora, refletir todos os raios de sol em novas borbulhas de água morna.

O vapor levantava depois das nove, que seria esse nevoeiro? O cheiro de soro que emanava daquele tempo voltava agora com o vendaval de sensações naturais à beira-mar. O vento que me atacava vinha de peixes diversos, de guelras molhadas, montanhas de sal e algum marinheiro esquecido da noite que, por não ter com quem ter, deixou de tomar banho. Eu conseguia ver sua única luz amarela tremulando no fim da baía. De toda a praia, era o único que podia com meu desajuste. Desejei com muita força me lançar na próxima onda, aquela que vem se formando ao longe... Eu a alcançaria. Furaria-lhe em plena madrugada e daria oitocentas braçadas até o marinheiro solitário. Mas o mar, ao contrário da piscina, continuava frio a ponto de anestesiar meus pés, que estavam descalços e já não sentiam a diferença entre as conchas trituradas e a areia. Fui me dando conta de que essa diferença não existia de fato. A calça fina, preta e social e as mãos com as sandálias nos dedos e muitos grãos de areia ou concha a me incomodar, penetrar entre as unhas, raspar na panturrilha. A água vindo e voltando, impressão minha ou estava cada vez mais fundo?

A senhora não deveria nadar a essa hora. Pode dar hipotermia. - Mas quem disse? O roçar de um peixe já na cintura, eu estava mesmo nadando, que coisa! O mar acabou entrando em mim. Quando voltei pra areia só tinha vergonha, os olhos procurando outros olhos, a praia ainda deserta. Nenhuma resposta, nenhum encontro. De onde viera a voz?

E a areia a se agarrar. No meio, entre os dedos, em torno do calcanhar, por volta das calças, agora tão inchadas que já não incomodavam. Eu seguia meus passos sem saber o que pretendiam e eles pretendiam o asfalto e as luzes e o ladrilho e a livraria. Ensopada. Não seriam tolos de me mandar embora depois de tudo. Uma mulher à beira de um colapso, se esvaindo inteira em água salgada no tapete... Fingiram que não viram. Achei educado e pude finalmente respirar, passar a mão na cara, tirar o sal acumulado do canto dos olhos.

Até que uma nuca se revelou entre as prateleiras de madeira. Uma nuca bem aparada, de leves cabelos castanhos por cima. Uma nuca conhecida e perfumada. Não podia ser ele. E realmente não era. Era um livreiro bem jovem, com avental de treinamento. Sorriu pra mim com uma simpatia forçada. Posso ajudar? E então pensei, que, por que não? Afinal de contas, poderia ser ele (só não era).

Lembra de mim?, arrisquei. E ele finalmente abriu um sorriso que era quase uma risada.

Como poderia esquecer?, e voltou a ficar sério. - Espera, que eu só vou pegar minhas coisas e a gente já vai sair daqui. - Virou as costas pra mim e entrou na sessão reservada.

Fiquei esquentada. Não podia admitir, muito menos compreender. O homem dera seu pulo, como sempre dava. Quando eu pensava estar à frente, o caminho era ao contrário e eu só estava voltando. Nem podia admitir com calma e segurança que permanecia imóvel no meio da livraria, a criar poças no tapete, como um gole de cerveja quente que não desce, porque não esperava aquela resposta. Não estava pronta para um homem jogando meu próprio jogo.

A metáfora me fez desejar uma long neck. E fomos até o quiosque falando da névoa estranha e do cheiro de soro. Ele parecia tão íntimo. Pedimos as cervejas, que não vieram em long necks, mas em copos plásticos enormes, gostosos de se pegar o bastante para serem perdoados, e seguimos ladeira acima; era o mirante. A subida era de pedra e ele parecia não dar a mínima pros meus pés descalços. Ou pra minha roupa molhada. Não teceu comentário.

Tivemos de atravessar a névoa sem ver o pico. E quando chegamos lá em cima não vimos mais nada, só mesmo a névoa. Quem estava em cima, não via quem estava embaixo e o mesmo era válido para o contrário. E sabíamos, porque viemos de lá, que embaixo havia o mar. Não víamos nada, além de um pálido brilho amarelo e distante, mas sabíamos que o fundo estava cheio de água e que a água estava cheia de bichos e que os bichos estavam cheios de fome e de medo e de prazer, exatamente como nós dois.

Aquela situação estava ficando embaraçosa, mas somente para mim.

Olha... Você vai achar estranho, mas eu acho que não sou quem você pensa que eu sou. Sabe?, ergui as sobrancelhas esperando uma resposta. A resposta não veio. Ele só respirou fundo, interessou-se e sentou do meu lado. – Entende? Acho que você realmente não sabe quem eu sou.

Claro que eu sei. Te reconheci na hora que você entrou na livraria. - Ele sorria enquanto falava, olhando bem nos meus olhos. Era leve como andar de carro novo.

Isso não é verdade. Você primeiro perguntou se eu desejava alguma coisa...

Eu só estava fazendo o meu trabalho.

Aí ele disse que o mirante não estava muito bom naquele dia. Que só eles tinham sido idiotas o bastante pra subir. E além disso a cerveja tinha acabado.

Pode beber da minha...

Não, eu tô reclamando, mas vai que fico bêbado aqui em cima?, aí pra descer fudeu.

Acabei sorrindo, meio tonta. Eu realmente nunca tinha visto esse homem, porque de repente foi como se toda a minha roupa secasse. Eu não sentia um grão de areia. Estava confortável e satisfeita em cima de um pedregulho, quente e seguro como um pai, tomando maresia na cara, espuma de vento e vontade de mar.

Quem sabe então não foi você que mudou?

Ah, não. De novo isso?

Sinceramente eu queria não ter que fazer uma coisa ridícula como por exemplo pedir pra você dizer meu nome completo, mas eu sou bem racional e confesso que está cada vez mais difícil manter uma conversa normal com você.

Para com isso! - Agora ele era outra pessoa. Irritado, como se finalmente tivesse desistido do jogo. - De querer uma vida normal, um trabalho normal, uma conversa normal... isso não existe! O que seria uma conversa normal?

A cerveja tinha esquentado, amargou na minha boca e quase não desceu. Eu devo ter colocado dois dedinhos na testa, incrédula, e suspirado. Estava a ponto de chorar, porque era bastante provável que aquele homem me amava. Um homem que eu não conhecia, amando um amor que eu também não conhecia, mas que não podia perder.

Olha, desculpa, mas eu acho que isso pode ter a ver com os remédios. Eu parei de tomar por conta própria já faz um tempo e hoje mesmo, mais cedo, uma... uma coisa estranha aconteceu comigo. Então eu posso estar tendo algum tipo de lapso de memória ou outro efeito da abstinência.

Ele gargalhou. - Eu sei as suas falas de cor. É sempre a mesma coisa: aí os remédios, aí a memória, a abstinência...

Ei, eu tô toda molhada! - levantei pra mostrar a roupa. Agora sim eu tinha raiva, porque ele revirou os olhos, ele fez um esforço para mostrar desprezo. - Entrei no mar sem perceber, estava a ponto de morrer afogada...

...e aí você ouviu uma “voz misteriosa” te chamando de volta pra terra - ele completou.

Eu já estava de pé e por pouco não dei um tapa naquelas bochechas rosadas.

Eu também sou um cara racional, Amélia – ele pegou minha cerveja e deu o último gole – e poderia ficar aqui tentando te convencer de que esse seu lapso de memória é uma defesa psicológica que a gente já conhece, já entendeu e já conversou, e que você está tomando remédio sim, porque a Ana confere todos os dias, e que essa história de aparecer na livraria molhada não é novidade, mas eu não vou. Eu cansei demais.

Aí que tá!, eu não tô tomando o remédio! Isso vocês não entendem. A Ana é uma tonta. A pessoa mais fácil de enganar.

Não tem Ana nenhuma, Amélia. Acabei de te pegar.

Aquilo não tinha graça.

Agora você vai dizer que meu nome também não é Amélia?

E você achou que fosse? – e ele me empurrou.

Quando senti que ia cair, usei todo o reflexo e a força dos meus dedos e agarrei as rochas que encontrei pelo caminho. Duas unhas se quebraram, mas consegui segurar. Bati o queixo na pedra, meus pés balançavam no abismo.

Olha o que você fez! Agora eu vou ser preso! – e ele veio na minha direção, erguendo a calça jeans, o tênis esporte, e eu só tive tempo de virar o rosto antes de tomar um bicudo tão forte no maxilar que arrastou minhas unhas por vinte centímetros na rocha. Agora todas estavam quebradas, dez pequenos rastros de sangue, mas eu ainda não tinha caído.

Era isso que você queria, não era!? – e agora ele chutava meus meus dedos, pra ver se eu largava, e a cada chute eu sentia os pequenos ossos se partindo, a pele se rompendo, tudo esquentar e berrar. Às vezes dedos inteiros se perdiam na neblina, dois estavam pendurados por um fiapo de pele e ele continuava chutando. Eu gritava o mais alto que podia, mas juro que não era de dor. Aquilo durou um bom tempo, até que finalmente caí.

E, quando caía, percebi que a luz amarela vinha de uma bóia e não do barco de um marinheiro solitário. Fiquei triste, porque não estava caindo no mar, mas naquelas rochas pontiagudas que ficam na beirada.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

As Meninas Se Divertem

"Aquela nem era a primeira vez que a gente fazia isso. Desde que a vó do Bittencourt foi pra Braga, ele não conseguia passar um fim de semana sem encher a cobertura da velha de gente. Tanto eu quanto a Taís já tínhamos ido numa dessas festinhas antes e tudo tinha dado super certo. Voltamos pra casa antes das duas, sabe? Eu mal tava bêbada..." ela falava mexendo as mãos só o suficiente pra mostrar o relógio quase masculino de tão grande.

"Quem é o Bittencourt?"

"O Paulo Bittencourt...?", ela ergueu as sobrancelhas, como se fosse óbvio.

"..."

"Era na casa dele que a gente fazia as festas."

"Dele ou da avó dele?"

"Da vó dele, dele... Não sei. Na verdade eu só ia por causa do César, porque eu tava conseguindo um retorno... Duas semanas naquela de um olhar pro outro e ele já tava me chamando pra vários eventos..."

"Quem é o César?"

"Ah, o César fazia engenharia... Na federal. Ele era baixinho, pra falar a verdade, mas só usava umas camisetas da Diesel, era cheiroso... Aquela cara de rola grossa!" e os dois começaram a rir. Ela encostou na cadeira, tirou os cabelos quilométricos e loiros da frente do rosto. "Quando um cara desses te chama pra sair, você não pergunta onde vai ser, você só dá um horário pra ele te buscar."

"E o que aconteceu de diferente na sexta pra tudo dar tão errado?"

"Então... Eu acho que foram as balas."

"Ecstasy?"

"O César passou lá em casa umas dez da noite. Eu e a Taís não estávamos completamente prontas (pra falar a verdade a gente nunca conseguia ficar realmente pronta. A base, o batom, o cabelo... é o tipo de coisa que vai vivendo no nosso rosto e sempre precisa de retoque e sempre pode ficar melhor), então eu mandei ele esperar no carro, porque Deus me livre ele subir ali e simplesmente olhar praquele apartamento!"

"Você mora sozinha? Taís é a menina?"

"Não sei se isso vem ao caso. Não é lá que a merda acontece. Mas Taís é a menina sim. Ela virou minha amiga porque tinha cara de inteligente e se vestia bem pra uma intelectual. Depois descobri que nem intelectual ela era. Só se achava artista porque tomava ansiolítico."

"Sei... Fazia o tipo descompensada."

"E não podia beber, por causa disso. Então na sexta, quando a gente saiu do elevador, o Marquinhos já tava sem camisa, completamente suado, com duas taças de champagne na mão... Ofereceu pra nós duas, muito empolgado pra quem só estava num social de cinco pessoas. Lembro de ter reparado que a música tava muito alta e que não era comum um som dessa potência não incomodar os vizinhos. Fiquei muito confusa com a hora, mas também fui a primeira a fazer um brinde, claro."

"Desculpa te interromper de novo, às vezes não me aguento em mim, mas você se importaria de repetir ou confirmar quais eram essas cinco pessoas?"

"Eu, Taís, César, o Paulo Bittencourt e esse Marquinhos, que era amigo do Paulo e tinha um fogo do cão.", ela passou o dedo pelo canto dos lábios e foi imperceptível nisso. Cuidei de seguir com os olhos a ponta dos dedos dela, quase nada sujos de batom. "Ele deveria se achar péssimo, pra falar a verdade... Porque aqueles meninos, eles passam de três a cinco horas por dia dentro da academia. O César até parou de crescer! do tanto de ferro que puxou. A mãe dele conta que ele trocou o ovomaltine por clara de ovo aos seis anos. Sabe? É ridículo... Você não consegue ver uma ameaça de gordura, é tudo rígido e firme e o Marquinhos..." ela inclinou a cabeça um pouco mais do que devia para rir bem alto. Como era ruim. Depois se recompôs "você sabe... Em alguns lugares ele seria chamado de obeso."

Quando ela tirou uma carteira de cigarros da bolsa e fez silêncio por quinze segundos para acendê-lo, quase meti os pés pelas mãos e avisei que não podia fumar ali. Com essa nova lei, você só pode fumar se estiver a cerca de oito quilômetros de distância de qualquer civilização e/ou ajuntamento de gente. Em vez disso, pedi um pra mim. Ela sorriu.

"Confesso que eu nunca achei a Taís interessante mesmo. Achava bonita, e que ela ficaria bem do meu lado, daria um toque sofisticado. Era isso. Uma coisa a ver com esses óculos dela. O livro publicado. Mas a gente não se conhecia bem pra eu gostar ou deixar de gostar. Olha... Se fosse pra te dizer a verdade mesmo, eu acabaria me metendo em encrenca, então melhor a gente ficar com o que aconteceu e não com o que eu acho de fulana ou ciclana, cicra..."

Agora fui eu quem franziu a testa.

"Aquela noite foi horrível por ene motivos e um deles foi eu ter conhecido a Taís melhor. Ela não era necessariamente entediante, mas tinha uma pompa! Um nariz empinado... Pelo amor de Deus!"

Ela tragou profundamente e permitiu com o inflar e desinflar dos pulmões, o franzir e desfranzir das testas. Já estava sob controle de novo.

"Ela recusou o champagne. Na entrada mesmo... PÁ! Aquele banho de água fria! O menino ali sem camisa, as taças transbordando na mão, o som no talo, César e Bittencourt com mais droga que farmácia e ela vem falar que não bebe, que toma remédio controlado. Já fez aquela cara de bunda dela, como quem diz, infelizmente é isso mesmo, eu tô sempre achando a vida um lixo e não vai ser hoje que essa impressão vai mudar. Como assim, velho? Ela só não estragou tudo porque eu sou a rainha da desenvoltura e já fui fazendo uma piada bem idiota..."

Tive que rir. Ela parou.

"Mas eu acho você engraçada... Juro."

"Não é? Eu não sou só uma patricinha estúpida. Eu sou bem inteligente." e ela fez cara de patricinha estúpida.

"Eu não sei se me sinto muito confortável com você fazendo piada da Taís."

"Por quê? Você conhecia ela?"

"Nunca vi na vida, mas a menina se matou, porra! Você não acha um pouco indelicado?"

"Ah, se você quer falar de delicadeza, deveria mesmo ter conhecido a Taís. Ela não podia beber por causa dos remédios e tal, mas o Marquinhos grudou e ficou enchendo o ouvido dela de ideia errada. Eu nem vi como tudo começou. Sumi por uma meia hora com o César, já tinha dropado duas balas e a Taís me aparece no ofurô, fazendo uma dancinha ridícula, o copo de água na mão... Amiga, eu não podia beber, mas ninguém falou nada sobre bala! E foi bem aí que a decepção bateu. Se ela já se sentia no direito de fazer a insana quando tava sóbria, imagina louca! Na hora eu quis vomitar. E vomitei mesmo... Sem sacanagem. Eu já tinha bebido pra cacete. Entrei tão doida no banheiro do Bittencourt que derrubei um vidro de perfume no chão. Quer dizer, eu derrubei metade do banheiro do chão, mas perto daquele perfume de velha nada mais impregnou na minha cabeça. Papelão."

Quando ela apagou o cigarro pela metade, percebi que havia passado o tempo todo narrando aquela festa com o cigarro entre os dedos e que eu não havia visto uma única tragada. A minha garganta, por outro lado, já estava mais que satisfeita com a brincadeira. Foi quando ela acendeu outro.

"Eu também estava muito louca..." e agora realmente tragou; e suas bochechas afundaram um pouco enquanto ela fazia isso. Quando voltou a olhar pra mim, parecia outra pessoa. "Eu e César já estávamos bem adiantados e eu não fazia ideia de onde estavam os outros três. Tinha uma impressão bem sutil de que estavam se divertindo. Mas nós dois já não queríamos saber de festinha na cobertura. A gente só queria uma cama."

"Sei como é."

"A verdade é que daqui pra frente eu não lembro muito bem os detalhes. Nem sei como a gente chegou na cama de casal. Mas o clima era de putaria total, isso eu consigo lembrar. O Marquinhos tentou beijar a Taís umas quatro vezes e ela fugindo, esquivando, ele propondo uma coisa pior que a outra, até que, pra não ter que beijar, ela deixou ele enfiar a mão na calcinha dela um pouco. Todo mundo vendo. A menina revirando os olhos. E assistir aquilo, por mais errado que fosse, me deu um tesão louco também.", ela olhou em volta da sala e se voltou para mim "vem cá, você não tem uma bebidinha?".

"Você acha que é uma boa ideia?"

"Claro."

Enquanto eu ia até a mesa de canto pra fazer um drink, ela acendia outro cigarro. O bar era improvisado, porque algumas visitas realmente só abrem o jogo depois de uns goles. Naquele dia era composto por uma garrafa de vodka barata pela metade, e uma de uísque, já mais pelas últimas.

"Você bebe uísque?"

"Não tem uma coisa mais leve? Uma cerveja..."

"Ah sim." Achei que ela estava intencionada a provocar outra festa. Abri o frigobar logo abaixo da mesa de canto torcendo pra não terem acabado as cervejas importadas. Tinham. Sobrou só uma Stella, solitária e trincada no fundo do congelador e, como essa já era dela, tive que esvaziar a garrafa de uísque num copo pra mim.

"Valeu", disse ela, depois que entreguei a garrafinha verde de vidro em suas mãos. Ela fez um gesto de brinde para o ar, mas quando foi beber, o líquido permaneceu imóvel dentro do vidro. Ela voltou com a garrafa da boca como se surpreendida por um truque de mágica. "Nossa!, tá congelada!"

"Ai, desculpa... Acho que você pegou no meio da garrafa. Tava gelada demais". Agora eu estava perdido, porque não tinha mais cerveja nem uísque caro. "E o pior é que a cerveja acabou... Esse uísque também. Só tem vodka com refrigerante, pode ser?"

Ela sorriu, balançando a cabeça. Feito o drink, findo o cigarro, tomado o gole, agora ela podia falar com a garganta menos seca.

"Onde é que eu tava?"

"Taís revirando os olhos com a mão do Marquinhos na calcinha..."

"Isso... Eu não sei o que estava passando pela cabeça dela, mas não fiquei pra ver. Eu mesma arrastei o César pra cama de casal. Não tinha como continuar fazendo charme. A gente começou a se pegar, trocando muita saliva e álcool, naquela confusão de pernas... duas, quatro, seis... Já não estávamos sozinhos. Enquanto eu caía de boca nele, alguém caía de boca em mim. Não consegui ver quem era, mas a pessoa sabia bem o que tava fazendo. E aí chegou Taís e Marquinhos na porta, os dois com olhos de bêbados, sem roupa, rindo com aquela malícia que todos sabiam o que queria dizer. E em pouco tempo a cama de casal ficou pequena demais pro tanto de gente em cima dela. E a Taís tava escrota."

"Em que sentido?"

"No pior sentido. Ela começou a falar tanta baixaria... até hoje me vêm umas frases que ela disse na cabeça. Pedia absurdos do pior tipo. Eu não quero entrar em detalhes, sabe como é... Você perderia o interesse."

"Muito pelo contrário.", maldita. Você sabe muito bem como o jogo funciona não é? Quanto menos informação você me der, mais interessado eu vou ficar. Mas isso nem é o que você pensa. Você sabe também que informação nenhuma corresponde à interesse nenhum, contradizendo toda a teoria anterior. Então você, de um jeito bem filhodaputa, enche de detalhes o que a gente nem queria saber e passa correndo pelo que de fato importa.

"Não vou dizer que abandonei o barco quando vi que ia afundar, porque eu não fiz isso. Mas olha... Muito menos participei daquela loucura, de um modo mais efetivo. Sabe como é, essas coisas de orgia, às vezes você acaba ficando de lado..."

Ela perdeu o brilho das maçãs do rosto por alguns segundos, arregalou em poucos milímetros os dois olhos e correu a tirar outro cigarro da carteira, tragar o quanto antes. Parecia dizer que o tolo era eu desde o princípio. Por não saber o que importa e se achar ludibriado, quando na verdade estava recebendo a porção mais suculenta da carne.

"Mas os meninos estavam começando a gostar demais. E como estavam bêbados! O suor deles fedia a cana, a gente ficava bêbada só de respirar dentro do quarto. E a Taís começou a pedir umas coisas muito pesadas... Pra ser sufocada, porque tava gozando. Os meninos não pensaram duas vezes. Ela tava completamente coberta de macho. E eles pareciam incrivelmente sincronizados. Três caras nela. Eu fiquei assustada nessa hora, porque olhei pro que tava acontecendo e pensei... Meu Deus, essa menina não vai aguentar. E comecei a gritar pra eles pararem, tentei puxar o braço do Marquinhos. O barulho era tanto que eu não conseguia ouvir os meus próprios gritos. Eles vão dizer que em momento algum eu gritei pra eles pararem, que ninguém puxou ninguém, porque eles querem me ferrar, mas a verdade é que não dava mesmo pra ouvir. E meus esforços no braço do Marquinhos foram inúteis. Demorou vários minutos aquilo tudo. Eu já tinha desistido, sentei mesmo. Só torcia bem vagamente pra que eles saíssem logo de cima dela. Aí o César berrou um "ei!" muito apavorado e sinistro e eu tive certeza que esse "ei" era pra Taís. Um "ei" emputecido e assustado. Meu coração gelou. Eu soube ali que tinha dado alguma merda muito grande."

"Então você tá me dizendo que a Taís não se jogou daquele prédio."

"Claro que não. Ela morreu ali. Naquela hora. Todo mundo ficou apavorado. Uma menina morta na cama, cheia de esperma no corpo... Imagina. A gente se desesperou. Começaram a falar de polícia. Eu só chorava, balbuciando que eles eram um bando de assassinos, que não me encostassem, e eles alucinados na paranoia. Não me deixaram sair... Juro pra você. Eu tentei fugir, implorei pra eles, só não gritei porque não tive coragem...", finalmente ela estava chorando, "eu não ia dedurar ninguém. Tava cagando e andando pra todo mundo naquela festa... Eu só queria ir pra casa."

"Mas eles não te deixaram ir..."


"Não. O Marquinhos pegou o celular de todo mundo, tirou todas as baterias... Nisso, o dia amanhecendo, a menina morta em cima da cama, aquele cheiro de fundo do poço... Foi quando eles começaram a falar que, de qualquer forma, ela já era doente, tomava remédio controlado, tinha histórico psiquiátrico... Parecia um monte de chapado tendo o mesmo insight. Daí para a ideia de simular um suicídio e jogar o corpo lá de cima foi um pulo."

quinta-feira, 9 de julho de 2015

O Homem que Fazia Espelhos

Gio não lembra com que idade fez o seu primeiro espelho. Ainda tinha os olhos da mãe quando se viu refletido num deles. Era pequeno e levemente côncavo da metade pra esquerda, mas isso segundo os padrões da família; para o resto da gente era um espelho quadrado perfeitamente ajustado. E aquele era, se não o primeiro, um dos cinco primeiros que Gio finalizava sem a mãozona do pai. Os espelhos que viessem depois, perderiam esta falha. 

Às vezes Gio era surpreendido por paisagens refletidas. Enquanto lia no sofá, com os braços formando um triângulo, cabeça apoiada no punho e a boca semiaberta, de repente tinha sua atenção roubada por um menino idêntico, também no sofá, também lendo um livro, também prestes a ter sua atenção roubada por um menino idêntico até que o menino sumia e o pai dele ia andando porta afora com o espelhão debaixo dos braços. 

Um dia viu o pai amarrando um do tipo oval de quase três metros de altura na traseira da caminhonete. Esse aqui vai pro reitor, ele disse. E o menino, que mesmo sem entender, percebeu a importância, reparou melhor no espelho. Tinha molduras cor de ferro, que iam e vinham dos polos, se enroscando feito erva no vidro. O céu estava limpo, com exceção de uma única nuvem, e felpuda, que, por pura canalhice, o dito espelho refletia. Foi ali que Gio se decidiu espelheiro. Queria um dia chegar a fazer um gigante daqueles, com o refinamento de certos espelhos que, não satisfeitos em refletir a verdade, acrescentam a ela uma autenticidade inédita. Gio faria espelhos! Tão grandes ou maiores que esse! Seriam disputados aos tapas por reis, rainhas e reitores. E serão mais detalhados que o próprio olho humano! Não se esqueça, é de um espelho fantástico que estamos falando. 

Conforme o pai ia envelhecendo, o trabalho de Gio aumentava. Agora ele era responsável por encaixar os espelhos nas molduras, organizar os pedidos, fiscalizar a produção (às vezes ele mesmo fazia o espelho), realizar as entregas e... bom, também não era exatamente uma fábrica ultra equipada, com dois turnos de funcionários trabalhando ininterruptamente; era uma casinha miúda com dois homens fazendo vidro. O que um não fazia, o outro tinha que fazer. E o um, pelo que se conta, vinha fazendo cada vez menos. 

O pai de Gio morreu, como é dos pais de heróis morrerem, mas o moço a essa altura já andava ocupado demais com seus sonhos refletidos. Não era hora de parar a produção; não agora que as molduras vinham finalmente se ajustando às medidas do vidro. Gio já podia até ver uma barba silenciosa a se espalhar pelo queixo e seu maxilar era agora de homem. Gostava dos seus olhos claros, de como mudavam de cor dependendo da hora, o que lhe garantiria uma eternidade de entretenimento em frente ao espelho. Hoje está verde-água, hoje, esmeralda... e assim por diante. 

O olho dele estava azul quando aconteceu o acidente. Carregava cerca de cinco espelhos retangulares, separados por pedaços de papelão, bem ao lado da cabeça. E subia degrau por degrau de uma escadaria infinita, num prédio sujo e apertado. Com os vidros enormes lhe aporrinhando a visão, Gio achou que já tinha chegado no andar certo. Mas não, porque as linhas abaixo do espelho e as linhas acima da escada, todas se misturavam, escondendo o nível final. É difícil dizer se os espelhos caíram em Gio ou se Gio caiu nos espelhos. A única certeza é que os dois estiveram juntos, e por muitos degraus; tanto que os olhos de Gio, na hora, deixaram de ser azuis. 

Ele agora tinha a cara da morte. Metade de uma sobrancelha tinha sido completamente arrancada pelo vidro. De um olho ele não via nada. A boca se repartira em duas, uma querendo sugar a outra. As bochechas deram lugar a uma coleção de galhos e ranhuras vermelhas, rosas e roxas e verdes e pretas. Ele não conseguia segurar a saliva na boca, o que lhe dava esse aspecto empapado constante. 

Gio até tentou fazer novos espelhos, mas percebeu que, por maiores e mais límpidos, todos, assim que prontos, refletiam a mesma coisa, e que a vinha a ser ele próprio. Olhava para o reflexo e tinha como que um refluxo. Era grotesco, incompleto, babão. Aquela era a última paisagem que ele queria ver refletida num espelho que criara e, ao mesmo tempo, era impossível fugir dela. 

Resolveu compensar na moldura. 

Durante meses Gio criou os mais belos modelos de borda, mas, assim que instalava o espelho, o reflexo voltava a exibir a mesma paisagem de antes. Aquilo distraía, tirava a atenção; profanava o vidro de tal forma que os reflexos seguintes estariam invariavelmente amaldiçoados. Até que ele começou a fazer espelhos que distorciam a realidade. Descobriu que pequenas alterações na envergadura produziam efeitos ainda mais alterados. Um dia criou um espelho gigante que lhe transformava em um ser achatado. As cicatrizes do rosto passavam imperceptíveis diante de figura tão imprevisível. Se apaixonou pelo resultado daquelas brincadeiras de entortar. Começou a preencher a casa com espelhos que lhe deixavam obeso, magrelo, girafo, sapão... até que um dia se viu cercado por tantos, que não conseguiu mais encontrar a saída. Sua morte foi refletida de 32 maneiras diferentes.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Jogue Suas Mãos Para o Céu

Ela gostava de deitar embaixo de uma árvore gigantesca e secretamente chamá-la de seu salgueiro lutador. A árvore era antiquíssima e vivia a duas quadras da casa dela. Sempre passava, não por ela, mas pela rua dela, quando ia andando pra escola. E podia ver de relance, entre um telhado e uma antena, seus galhos bisonhos, cheios de si e selvagens, prestes a dominar quase tudo. Gostava da árvore e era uma criança que lia muita bobagem.

Levava sua canga, seus panos todos. Tinha duas almofadas de um couro bravo, que não sujava por nada, e sabia encaixá-las exatamente como duas asas nas costas. Deixava as almofadas quietas, entre ela e o salgueiro. Abria um livro.

O lugar foi escolhido de propósito; tinha sua sombra inevitável, sua distância segura e era perfeito pra ela, que não só era romântica, como também nascera com um talento único para a composição de ambientes forjados, cenários construídos, que reuniam uma gama tão grande de prováveis focos de inspiração e beleza, que o lirismo era praticamente obrigado a descer pela gola.

Aquela árvore devia abrigar umas sete famílias de pássaros. Todo santo dia, quando ela chegava, a revoada fervia. E depois de acomodada, com as duas asas nas costas, via cada passarinho, um a um, voltar pro galho, já que não tinha perigo. O canto não era dos lindos, mas tinha seus picos de glória, num pio doce e alongado, que hora ou outra irrompia.

Mas como nem tudo são asas, cantos de ave e salgueiros, a menina acabou se perdendo por um caminho estranho. Começou a ler muita coisa cheia de vida e verdade. Começava a olhar pro mundo, com uma lente alterada. Não como se danificada, mas como se enfim resolvida. E tudo doía demais.

Até que um dia se deparou no metrô com uma senhora bem gorda, com as pernas completamente estouradas. Pareciam veias de um gigante, aprisionadas numa perna maciça. Algumas saíam pra fora, numa flor enorme e roxa. Outras circulavam a panturrilha como um lagarto marinho alongado, do qual se viam umas pontas e, ela jurava também, o sangue passando no meio.

Olhando pro rosto da dona, se comoveu num segundos com aqueles olhos imensos, doentes de tristes. A mulher da perna estourada, ela tinha os olhos exatos e comuns de quem já vinha lutando há tanto tempo que já nem se lembrava ao certo se tinha algum prêmio no fim.

Foi ali, naquele instante, que a menina sentiu a lágrima de um olho descer, por compaixão mais pura e simples, e junto com ela uma pele minúscula, rolando bochecha abaixo. Foi tentar recolar sua pele, mas o trem tremelicou e ela esbarrou os dedos na cara, voltando com metade do rosto nas unhas.

Disseram que tinha uma doença obscura. Hanseníase simbólica, ou hanseníase literária (ou ainda, em alguns condados, lepra poética). Era bom evitar o contato dos seus livros com a mão de qualquer pessoa. Ela devia queimá-los e manter uma distância segura de qualquer amigo ou irmão. Não era bom que falasse por mais de cinco minutos. Não era bom que apresentasse trabalhos, que publicasse na internet, que escrevesse poemas. Essa doença é terrível e contamina bem fácil.

Numa outra viagem de trem, esbarrou com um rapaz de olhos tão misteriosos quanto irresistíveis. Nem precisou chegar muito perto para sentir uma dorzinha de nada apontar na agulha, mas, não satisfeita com o trombo, foi atrás escada acima. E eles viveram uma coisa tão boa, que ela se esqueceu do salgueiro, deixou seus livros de lado e manteve a boca fechada.

Até porque num segundo nem boca mais ela tinha. Bastaram dois beijos para que ela se descolasse inteira, beiço e tudo, nos lábios daquele rapaz. E ele levou a boca dela. Levou também sua voz tão quieta, e aproveitou pra cantar.

Era verdade que a moça já vinha andando calada, mas sem a boca no rosto, era difícil comer. E sem comida pra comer ou voz pra cantar, ela se meteu num silêncio muito magro e discreto, no canto da sala de estar. Passavam por ela e olhavam, cheios de pena e ternura, e ela sentiu que começava a escorrer, braços pernas, virilha afora e que ela precisava sair dali, antes que fosse só água.

Foi atrás daquele rapaz, dos olhos fechados em si, e, na falta da boca, teve que usar muito os braços e as duas mãos e os dedos, de modo que não levou muito tempo até que ela fosse só um toquinho simpático com duas pernas fincadas.

Voltou pra casa pensando em todas as partes que tinham ficado pra sempre nas partes daquele rapaz. Nas partes que estavam perdidas e que, pra falar bem a verdade, já nem lhe faziam mais falta. Com os joelhos e os dedos do pé ela juntou os seus livros; os poucos que ainda restavam, os que ela não tinha queimado, e foi com eles pra árvore, sedenta por distração.

Não fosse a chuva miúda que começava a cair, talvez ela até pudesse ler por mais uns dias. Ela já conseguia passar as páginas com o dedão do pé esquerdo. E as almofadas nas costas, cada vez mais, lembravam as asas de uma mariposa, com o corpo dela no centro, em vez do de uma lagarta. Mas além da chuva ainda tinham as aves, que vendo escorrer certo leite, foram atraídas num salto para os olhos da nossa menina. Esses olhos tão vivos e espertos, a percorrer muitas linhas, eram as únicas partes que ele ainda não tinha roubado. E os pássaros começaram a bicá-los, enquanto ela ia formando na mente a última frase possível.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Clara, a Grande

Acendeu a tela do celular com a mão direita e viu que já passava da meia-noite. Antes de mais nada, é preciso explicar que Clara era uma exceção. Pra quase todas as regras germinadas nesse mundo, Clara era sempre uma exceção. Ela também era importante; especial, até. Seu tempo valia ouro, ela via de cima, ela previa as coisas e ela fazia feitiço. Ela também era gorda.

Assim que ela viu as horas, seu primeiro impulso foi fingir que não tinha visto e continuar navegando pela internet (embora o termo mais apropriado seja “dando cabeçadas”), mas a grande Clara, a que era cheia de importância, já havia sido acordada de seu sono irresistível. E essa mesma Clara, que não só se julgava importante, como realmente era, não conseguia contornar o absoluto e terrível fato de que já passava da meia-noite. E que ela precisava dormir logo, se não agora.

Ela até pensou em começar um filme, porque ao menos era uma coisa útil a se fazer de madrugada. Mas um filme começado àquela hora, ia, no mínimo, até umas duas... e aí já ficaria tarde demais pra Clara dormir. Não que ela não gostasse da noite. Ela inclusive amava. Mas no dia seguinte teria aula e levantaria às sete. É... melhor nem começar a ver esse filme. Daqui a pouco eu vou dormir. Só mais uma olhada nas fotos da Paula.

Clara tinha os cabelos vermelhos, pintados com tinta barata pela vizinha um pouco mais velha; e seu rosto era redondo como o universo. E agora eu não vou começar a dizer como a Paula, por outro lado, era gata e parecia a porra de uma top model em todas as fotos que colocava no facebook. Apesar de que era exatamente isso. Mas eu não vou dizer. Porque não faz diferença. Porque, na verdade, Clara não conseguia se sentir pior que ninguém. Ela olhava pra foto linda da senhora perfeição, enxergava a beleza, enxergava a perfeição e automaticamente começava a listar na cabeça todas as outras setecentas qualidades que a colocavam acima de Paula, não no quesito beleza, obviamente, mas em quase todo o resto. No fim das contas, o fato dela ser bonita parecia mais como uma esmola ou um prêmio de consolação.

Uma segunda olhada nas horas, desta vez no canto da tela do computador, e o horror bem ali, estampado. Já eram duas e quinze da madrugada! E ela começou a se sentir farta, antes mesmo de se sentir vazia. E desejou voltar atrás e ter visto o filme, porque ele já teria até acabado. Mas agora era tarde demais, melhor nem começar. Na verdade o que não podia era exatamente começar. Ela tinha que dormir. Só precisava despedir de duas pessoas com quem trocava mensagens.

A primeira delas era um menino do terceiro semestre, que parecia inteligente, mas que acabou se revelando, através de um “concerteza”, uma das piores fraudes daquela universidade. A segunda era sua própria irmã, que estava acordada no quarto ao lado, provavelmente travando a mesma batalha contra a madrugada e suas horas gulosas.

Mas como tempo é ventania (e vasto é o mundo), essa despedida acabou se estendendo um pouco e pairando por links misteriosos, vídeos secretos e receitas de macumba. E agora ela até podia ver ali as horas passando: minuto por minuto, sem qualquer surpresa, cada um deles como uma pequena espetada de florete, esperada e temida. E mesmo assim, alguma coisa de outro mundo mantinha sua enorme bunda deliciosamente acomodada na cadeira e seus olhos perdidos, diante de uma tela por onde passava uma infinidade de nada.

Foi quando aconteceu. Como que um resgate abrupto de alguém que há anos se encontrava caído num poço fundo, a ideia veio e ergueu a alma de Clara, lhe acordou de um pesadelo e tudo ficou cheio de luz e promessa. Ela só precisava ser realista: já que não iria dormir, e isso não dependia só dela, por que não aproveitar o tempo? Era isso! Ela iria parar tudo e dar play no filme. Porque ela jamais se perdoaria se visse passar diante dos seus olhos mais duas horas de coisas que ela poderia ter feito e não fez. A vida dela já vinha sendo formada por um bom número de horas assim. Dessa vez ia ser diferente.

Então ela fez o que devia ser feito. E cheia de uma energia vital, começou a procurar pelo filme. Parecia renovada com essa perspectiva inédita de madrugada. Tudo estava quieto e misterioso, quando ela se acomodou, deu o play e, oito minutos depois, dormiu.

sábado, 6 de julho de 2013

Uma Questão de Retina

Ela estava de pé, em frente ao assento preferencial do metrô, enquanto ele dividia o mesmo com uma senhora de obesidade mais ou menos mórbida. Ela reparou nele. E reparou que ele era algo muito próximo de lindo. E que tinha os olhos marrons. E que tinha o rosto levemente inclinado pra ela, como um convite.

Começou a se exibir com uma naturalidade perversa. Mudou a posição das pernas, se inclinou um pouco pra frente, fechou os dedos em torno do mastro de metal e sorriu. E ele não viu. Parecia extremamente distraído com alguma coisa que dançava no ar entre ela e o resto do trem. A necessidade de ser vista crescia. E a conexão existia, ela podia sentir. Era só uma questão de retina.

Usou de uma estratégia mais ousada e abriu o primeiro botão da camisa como que tomada por um calor repentino. Ela era toda perigo. Sentia os solavancos carinhosos dos trilhos percorrerem suas pernas, subirem pela virilha e se instalarem exatamente ali. No coração. Mas o contato visual continuava inexistindo.

A gorda acordou do seu cochilo, limpou a boca molhada, esfregou os olhos remelentos e desceu na estação seguinte, deixando o assento vazio. O jovem de olhos marrons continuava imóvel, olhando pro mesmo lugar que não era ela.

Foi quando, cheia de coragem e ardor, ela se aproximou. E quanto mais perto chegava, mais clara se tornava essa piada trágica do destino. De que os olhos dele, além de marrons, eram também opacos. E mortos. E que ela poderia abrir, um por um, todos os doze botões da camisa, que ele continuaria sem ver. A bengala ali, repousada ao lado do banco, onde sempre esteve.

Sentindo-se culpada e triste, ela sentou do seu lado. Mais por preguiça que por interesse. E, contrariando suas expectativas, ele virou o rosto pra ela. Os olhos estavam na reta, mas continuavam sem acertar o alvo. Alguma coisa de indescritível existia ali. Ela podia sentir, ele também.

Tocaram na mão um do outro. Primeiro de forma carinhosa, como um cumprimento; depois de forma apaixonada, como um terremoto. E ela estava chorando e sorrindo quando ele começou a tocar seu rosto com a mão esquerda, como alguém que procura um interruptor inexistente. A mão direita ele enfiou no bolso e trouxe de lá uma adaga prateada. Fez um movimento profundo, letárgico e começou a furar um dos olhos de sua nova amante. E ela permitiu, com uma resignação admirável. Sentia o sangue escorrer pelas bochechas, mas não conseguia sentir dor. Nem medo. E depois ele furou o segundo com o mesmo amor com que furara o primeiro.

E só então ela percebeu que ele tinha visto o sorriso, o decote e tudo o mais. Que durante toda a viagem, era ela quem estava cega.

E agora eles podiam se ver.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

As Razões Pelas Quais Vou Ficar Sozinha

Já eram três da tarde quando Mateus chegou com seus passos largos, pedindo desculpas pelo atraso e desarmando o mundo com seu sorriso bobo. Tinha a aparência impecável, apesar do sol e do ônibus. Não suava, não tinha espinhas e nunca parecia desconfortável. Era uma divindade estranha, sempre flutuando ao redor da humanidade sem muita pressa ou interesse por qualquer coisa que não fosse ele próprio. Encontrou Débora sentada no chão, embaixo da árvore preferida, visivelmente desapontada.

– Eu tava na casa do tio Cláudio até agora, acredita? O almoço só foi sair uma e meia. Foi mal...

Tudo bem, mas ela teve que começar sem você.

Débora estava de preto e bebia um vinho barato direto do gargalo. Tinha uns olhos redondos e ofensivos. Cabelos vermelhos, do tipo fino e macio, e era magra e bonita de um jeito quase imperceptível. Eles tinham terminado há dois anos e desde então vinham tentando criar uma relação amistosa. 18 anos de idade, vai... Eles ainda podiam insistir no erro.

Mateus era um espírito livre, tragicamente perdido. Mantinha os cabelos negros e lisos perfeitamente alinhados acima dos olhos. A pele branca e a boca vermelha davam esse ar vampiresco que encantava e causava repulsa na mesma medida. Ele também não entendia porque continuavam marcando esses encontros.

– Eu tava aqui pensando nas razões pelas quais vou ficar sozinha.

– Ah. – Mateus virou os olhos, se acomodou, acendeu um cigarro.

– É sério. Eu cheguei a umas conclusões. Por exemplo: eu me apaixono. Acho que é a principal razão.

– Mas Débora... Não tinha outro assunto? Eu não quero discutir isso com você de novo. Não vou ficar aqui enumerando suas qualidades e tentando te convencer do tanto que você é maravilhosa...

– Não precisa. Eu conheço minhas qualidades. Não tô dando uma de gótica melancólica que bebe vinho às três da tarde e acha que a vida não vale a pena. Só tô dizendo que quem não se apaixona, não sofre. Inclusive parabéns.

– Oi?

– Parabéns por conseguir nunca se apaixonar por ninguém.

– Ah, obrigado.

E eles fizeram um silêncio. Mateus soltava a fumaça cada vez mais pesada de rancor e Débora começava a sentir o efeito do álcool em seus olhos molhados.

– Eu não sou interessante. Por que alguém ficaria comigo? Sou completamente normal. Previsível. Morna, como um vômito. Então eu poderia até beijar na boca de vez em quando, porque meninas normais beijam na boca de vez em quando, mas nunca conseguiria alguém suficientemente bom que se interessasse em ficar comigo pra sempre. Eu mato as pessoas de tédio, Mateus. Olha pra você... Não tem cinco minutos que chegou e já tá babando de emoção.

Mateus continuava calado, fumando o espanto pela moça ruiva e inocente que agora parecia queimar sobre o fogo de si mesma.

– O que mais? Eu tenho ciúmes. Isso mesmo. Tenho. Desculpa. Não posso fazer nada se, pra mim, amar é também ter medo de perder. Nunca vi sentido em gente sem ciúmes. E penso em casamento, porque também não vejo sentido em amar e ficar longe. Não entendo quem ama, mas não quer uma proximidade doentia. Não entendo quem ama e não quer apertar, sufocar, engolir o outro.

Débora estava com as bochechas vermelhas de calor, mas o céu começava a escurecer. Eram três e meia da tarde e a lua já aparecia. Ela reparou no fenômeno, mas achou tolo interromper um assunto sério daquele para comentar que o sol estava se pondo às três e meia da tarde.

– Mas na verdade – ela mudou o tom de repente, como se toda a sua doçura tivesse ido embora com o sol. Pegou o cigarro recém-aceso da boca do ex-namorado, deu um trago e continuou a falar, mas dessa vez com violência – eu percebi que nada disso era culpa minha. Que o problema não era meu. Nunca foi. Você era o problema. Você estava errado. Você que, por algum trauma ou deficiência, nunca conseguiu amar alguém.

– Você tá sendo dramática, absurda. Um pouco ridícula até.

– Talvez. Mas eu sou dramática, eu sou ridícula... Cansei de tentar dizer as coisas de um jeito mais natural, mais leve, sem machucar ninguém. Porque eu tenho aqui, Mateus, trezentas toneladas de puro absurdo. Você não faz ideia de como é difícil tentar me controlar do seu lado pra não parecer cafona, pra te manter entretido, pra não te assustar. E, olha, sinceramente... eu cansei. Agora você que aguente todo esse peso. Você tem braços fortes, mocinho.

E Mateus, sempre tão cheio de argumentos, tão racional, lógico e óbvio, ficava calado, porque percebeu o perigo de uma Débora cansada. Porque percebeu que esse momento era dela. Que ele nem deveria estar ali e não faria diferença argumentar. Ela sabia que ele estava certo, ele sabia que ela era louca e isso não mudava em nada a certeza ou a loucura.

A moça continuava seu discurso, engolindo a fumaça e falando ao mesmo tempo, desafiando a lógica, prestes a chorar.

– E, por favor, me explica o porquê dessa insensibilidade. O porquê desse medo. Eu juro que não entendo. Não sei como alguém consegue ser tão frio e sem carinho. Tenho até pena, sabia? Porque alguém assim deve sofrer bastante. Como é manter todo mundo a quilômetros de distância? Como foi namorar comigo por anos e não se permitir nenhum tipo de demonstração sincera de afeto? Valeu a pena? Você tá intacto, tá lindo... É isso que importa, né?

Mateus não olhava pra ex-namorada. E ela chegou a pensar que ele estava arrependido, que iria lhe pedir desculpas, com os olhos cheios de lágrimas, e lhe beijaria a boca. E lhe tiraria a roupa. E transariam na beira do lago como jamais transaram. Em vez disso, ele observava um besouro perneta e suas tentativas desesperadas de ficar de cabeça pra cima.

– Você. Sempre você. Você e seu egoísmo. Você e sua família perfeita e seus almoços de família perfeita que sempre atrasam tudo. Você e sua mania de grandeza. E sua facilidade de convencer todo mundo que é bem melhor, mais talentoso e mais legal do que realmente é. Deixa eu te falar, Mateus: você não é grande coisa. Você tem medo! Você é uma criança assustada, desesperada por amor. Você quer ser amado mais que qualquer coisa e, por isso mesmo, não consegue amar.

Duas ou três lágrimas já estavam rolando no rosto de Débora, Mateus continuava olhando pra baixo. Ela esticou o tronco até ficar a poucos centímetros dele:

– Olha pra mim!

Ele não olha. Não tem coragem. Ela segura o rosto dele com as duas mãos, o obrigando.

– Olha pra mim!

E chora. Chora copiosamente. Chora lindamente. Se derrama inteira pra ele. Ele assiste tudo, como um filme ruim. Desconforto. Culpa. E Débora ali, a poucos centímetros, executando finalmente sua vingança, sua tortura.

Nem quatro da tarde e o céu já estava completamente escuro. Os postes ainda apagados, porque estão programados pra acender às seis e também porque o governo não fazia ideia de que justo naquele dia o sol ia se por às três da tarde. E porque o mundo tava acabando e ninguém se deu conta. Só Débora.

– Fala alguma coisa! Por favor! Tenta se explicar. Diz que eu tô viajando. Não me deixa acreditando que tudo o que eu falei era verdade. Faz como você sempre fez. Inverta tudo, transforme tudo, mas me deixa confortável com uma mentira sincera. Por favor. Fala alguma coisa!

E dessa vez ele não falou. Não houve conforto. Nem mentiras sinceras. Nem qualquer outra referência à MPB. E Débora virou o que restava da garrafa de vinho, respirou fundo, abriu a bolsa e tirou de lá um revólver. Como quem tira um espelho.

– Que isso, Débora? Onde você arrumou essa arma?

Sem jeito, mas também sem tremer, ela arma o tambor e oferece o revólver para Mateus.

– Eu já tô morta. O que você vai fazer agora é uma espécie de eutanásia.

Mateus permanece incrédulo, olhando da arma pra Débora, esquecendo até mesmo do besouro perneta. E ela agora parece linda com aquele revólver na mão. Tem os cabelos tão ruivos e é tão segura de si, perigosa e dramática, que ele jamais ousaria chamar de ridícula.

Ela coloca a arma na mão de Mateus.

– Vai. Isso não é um assassinato. É um suicídio assistido. É que eu realmente gosto do jeito que você me machuca.

E ele, meio sem pensar, meio pensando demais e reconhecendo o absurdo de tudo e a importância de nada, coloca a arma na cabeça de Débora. Mas coloca com um carinho inédito. Se olham pela última vez. E naquela fração de segundo se perdoam por tudo. Pelo ciúme, pelo egoísmo, pelo medo e pela tortura. Ela fecha os olhos com um prazer pornográfico. Ele aperta o gatilho com o mesmo prazer.

O barulho do tiro faz outros dois besouros ficarem de cabeça pra baixo.


Débora só foi encontrada horas mais tarde, com o revólver na mão direita e a cabeça estourada. E Mateus nunca chegou. O almoço atrasou tanto que ele desistiu do encontro.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Fase de Latência

A contagem estava começando e tudo o que se ouvia eram passos pequenos, apressados e errantes. Cada criança seguia até seu abrigo com desespero e emoção. Tinham trinta segundos. E a cada número cantado, menos gente se via. Às vezes uma perna, logo mais nem isso. Até que a vizinhança fosse puro esconderijo. As árvores, carros, becos e moitas guardavam seus meninos com compaixão. Eram todos cúmplices de um crime invisível. Silêncio. Silêncio.

Luana tentava prender a respiração entre os arbustos. Sua posição era desconfortável e os galhos lhe rasgavam a bondade pelas costas. Devia ter escolhido outro lugar pra se esconder. De repente Dudu aparece, esbaforido, com cara de socorro.

— Sai, Dudu... Eu já tô aqui. — sussurrou.

— Não dá mais tempo, ele já parou de contar. Vou ter que caber.

Vou ter que caber... Luana achou graça do menino, querendo se enfiar onde, obviamente, não havia espaço. Mas pensou que se não admitisse Dudu, estaria cometendo algum tipo de pecado. Como se fosse dona de um hospital e negasse atendimento a um homem moribundo. Dudu era seu moribundo.

— Que saco... Não tá vendo que não cabe?

— Ah, Luana... Chega pra lá, empurra esse galho. Isso. Pronto.

Os dois conseguiram se espremer entre as árvores. Agora eram obrigados a ficar numa posição terrivelmente vulnerável. Seus pequenos corpos de dez anos estavam amontoados no interior da moita e os galhos e folhas funcionavam como uma cabana escura e volumosa. Lá fora, o menino gordinho começava a procurar.

Os dois ficaram em silêncio. Um silêncio tão grande que chegava a assustar. Cada movimento era um escândalo. Os gravetos não rangiam, berravam. O chão era uma sinfonia de pequenos e tremendos barulhos. Luana estava incomodada. Precisava respirar, mudar de posição, espantar uma formiga, mas Dudu parecia um robô, vidrado, acompanhando o gordinho com a atenção de um predador. Por um momento pensou que brincar de esconde-esconde era mesmo coisa de menino. Eles eram mais rápidos, silenciosos e levavam a brincadeira mais a sério. Ela, se estivesse sozinha, por certo já teria perdido. Não levava muita coisa a sério. Mas Dudu era um guerreiro. Desses impávidos.

Aos poucos Luana percebeu o que lhe ocorria e com espanto se deu conta do absurdo que era estar espremida com um garoto no meio do mato. Pra logo mais, não se espantar. E até gostar. E achar estranho. Abusado. Tinha dez anos e estava espremida com um menino no meio do mato. O horror. Mas Dudu parecia concentrado, só tinha olhos pro jogo. Ele jamais perceberia o que estava acontecendo.

Viu que seu short terminava no meio das coxas, a bermuda dele também, de um jeito que, mais cedo ou mais tarde, suas pernas se encostariam. Acabaram se encostando como um arrepio, mas ele parecia não se dar conta. Estava entretido no jogo. E Luana adorou a sensação da panturrilha dele contra a dela. Quente e áspera, com uma cicatriz do futebol bordando as beiradas. Uma pressionava a outra. Cada vez mais forte.

Dudu tinha o cabelo anelado, mas de um jeito que só é possível se ter aos dez anos de idade, quando os hormônios da puberdade ainda não estragaram a maciez da vida. Seus olhos eram escuros, mas não chegavam a ser pretos. E ele todo era bastante bonito, o que incomodava Luana há dias. Porque ele era bonito, mas parecia não fazer ideia disso. E quanto menos fazia ideia, mais bonito era. E às vezes sorria de um jeito pateta e ficava incrivelmente adorável. Às vezes se irritava com alguém e chegava a esbravejar, mas tinha a língua presa, o que tornava seu discurso engraçado na maioria das vezes. E Luana fingia nada ver por baixo de sua franja marrom. Suas observações e impressões eram silenciosas, como se, admitindo sua admiração por um garoto, tivesse que admitir também que estava crescendo.

Teve seus devaneios interrompidos pelo cotovelo de Dudu, que fincava sua costela.

— Dudu, seu cotovelo tá me machucan...

A mão dele veio tapar sua boca. O gordinho estava a poucos metros. Caminhava lentamente, com um olhar de águia. Os dois prenderam a respiração. Qualquer barulho seria fatal. E Luana pensou que seu coração colocaria tudo a perder. Batia rápido demais, forte demais, fundo demais. O que significava aquilo tudo? Eram os dedos de Dudu que agora estavam em sua boca? Tapando-lhe os lábios? Fazendo tremer? Aos poucos, toda sua sensibilidade fora transferida para a ponta da boca e ela já podia sentir cada risco da pequena mão de Dudu. Sentia o cheiro de menino nos seus dedos e pensou que fosse desmaiar de embriaguez. Era refém. E precisava esperar que o gordinho se afastasse para tentar um acordo pacífico.

— Ufa. Foi por pouco.

Dudu tirou a mão da boca de Luana e tentou ficar numa posição mais confortável. Foi quando ela percebeu, com pavor, uma mancha de sangue nas costas do menino. Enorme, como uma flor. Teve vontade de chorar, mas se controlou. Era preciso falar baixo.

— Sua blusa tá cheia de sangue!

— Quê?

Ele também pareceu assustado. Colocou a mão nas costas para se certificar e voltou com os dedos vermelhos. Sem pensar duas vezes, Dudu tirou a camiseta. Agora dava pra ver o corte. Transversal e reto. E fundo.

— Acho que esbarrei em alguma coisa afiada quando entrei aqui... — ele parecia tranquilo, mas suas costas sangravam. Lenta e continuamente.

Luana não conseguia falar. Sentia-se atordoada e confusa. Olhava para Dudu e só conseguia enxergar seu corpo de criança que, naquele momento, parecia tão errado e desejável. Sua pele clara, o pequeno peitoral infantil que era a promessa de um adulto saudável e forte, o corte nas costas. Tudo vermelho, sujo, suado. E alguma coisa entre suas pernas lhe atraia profundamente. Como um ímã.

— Acho que vou ter que me entregar. Ir pra casa... — disse ele, tristonho pelo fim da brincadeira.

Luana não respondeu. E atendendo a um impulso animalesco e violento, virou Dudu de costas e foi estancar seu sangue. Com a boca. Ele deixou, sem entender muito bem que espécie de técnica era aquela. E ela sugava cada vez mais forte. Sentia o gosto do sangue na boca. Abraçava todo o menino por trás e se sentia vampiresca, mas não podia parar. Teve tonturas de prazer, desfaleceu de tesão, revirou os olhos, conheceu a morte e voltou saciada. Tirou os lábios de suas costas.

— Valeu, mas acho que preciso mesmo ir embora. — Não havia constrangimento entre os dois. Ele sorriu, como se agradecesse o serviço de uma enfermeira. E ela continuou calada. A boca manchada de sangue. Diria pra mãe que comera amoras do pé.

E Dudu se entregou. Foi pra casa carregando a camiseta na mão esquerda e um segredo na outra. Ninguém saberia que ele só havia aparecido ali, no esconderijo apertado, porque momentos antes vira Luana entrando e queria ficar perto dela. E que passara a brincadeira inteira com o coração aos pulos, sentindo seu perfume, reparando em sua pele, sua franja, seus olhos, e que quis perder a vida quando ela beijou suas costas feridas. Mas Luana parecia sempre concentrada, só tinha olhos pro jogo. Ela jamais perceberia o que estava acontecendo.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

O Homem na Piscina

Acordou com a boca azeda, o estômago girando e uma insistente falta de ar. Sentiu o corpo dolorido e as bochechas dormentes pelo contato prolongado com o chão da cozinha. Suas ressacas normalmente não eram assim e, por alguns segundos, Júlio foi tomado por aquele pânico infantil de quem acorda sem saber onde está. Aquela mesma sensação das tardes de domingo, quando cochilava em frente à TV e despertava horas depois, encontrando a casa vazia.

Aos poucos ele começou a identificar elementos de um cenário conhecido: a geladeira antiga, com pequenas ferrugens nas laterais, o fogão azul, onde sua avó fritava bolinhos de chuva, a bancada de mármore, que separa a cozinha da sala de estar e o crucifixo de madeira, com um Cristo retorcido de dor. Ele estava no casarão onde costumava passar os fins de semana; a 40 minutos do centro da cidade.

Depois do AVC de vovó, que culminou na terrível perda dos bolinhos de chuva, o casarão da família passou a ser de domínio público. Nenhum dos quatro filhos queria arcar com as despesas para mantê-la funcionando, mas também não podiam vendê-la. Pelo menos enquanto vovó ainda estava viva. Então os netos aproveitavam como podiam. O lugar estava abandonado, caindo aos pedaços, mas tinha piscina e churrasqueira, o que garantia aos jovens um mínimo de cerveja, sexo e privacidade.

E Júlio, que sempre havia usado a casa sem maiores problemas, dessa vez percebia tudo um tanto longínquo. Ele se lembra de ter chegado de carro na sexta-feira e ligado pra um ou dois amigos, chamado pra beber, mas nada além disso. O chão permanecia cheio de garrafas de vodca, comprimidos e o tempo nublado não ajudava a responder às perguntas. Que horas são?

Ele tentou levantar, mas repentinamente sua vista falhou, o som desapareceu e ele sentiu que estava partindo. E precisava voltar, antes que fosse tarde demais. Sem forças, desabou, espalmando uma poça de sangue. Esperou sentado por alguns minutos até recuperar o equilíbrio e correu os olhos pela sala de estar. Manchas de sangue. Percebeu também uma faca, dessas Tramontinas, de serra, e achou tudo um tanto novelesco. Quem mataria com uma faca de serra?

O rastro levava à parte externa da casa. Ele caminhou lentamente até a churrasqueira, que na verdade era só uma mesa de pedra e quatro bancos em ruína, e percebeu que a piscina, antes esverdeada de musgo, exibia agora uma coloração púrpura. Na superfície, de bruços, um homem boiava. Júlio virou o rosto bruscamente, como se quisesse convencer alguém de que não vira nada, mas era inútil. Tinha um corpo na piscina.

E ele teria gritado, se houvesse alguma possibilidade de ser ouvido. Em vez disso, preferiu entrar o mais rápido possível no casarão. Tinha medo de ficar ali fora, exposto, porque não entendia o que tudo aquilo significava. As drogas, o álcool, o homem na piscina... Alguma coisa tinha dado muito errado naquele fim de semana.

Quando entrou, Júlio deu com sua avó de pé na cozinha, mexendo uma massa na vasilha. Ela estava com os cabelos brancos presos num coque, vestido florido e as bochechas rosadas de saúde. Nada de cadeira de rodas. Nada de AVC. Tudo estava exatamente igual ao verão de 98.

— Vó?

— Oi, querido...

Júlio estava sem reação. Queria abraçá-la e dizer o quanto a amava e sentia falta daquela voz, daquele perfume e daqueles bolinhos de chuva, mas isso lhe pareceu traição para com sua verdadeira avó. A das mãos atrofiadas e cadeira de rodas. A senil.

— Quando a senhora chegou?

— Como assim, Júlio? Essa é a minha casa... — e ela disse isso com tanta convicção que ele achou melhor não retrucar — O que você tem, meu filho? Que cara é essa?

— A senhora viu a piscina?

— Vi. — ela ficou na ponta dos pés, como se quisesse enxergar a janela — Tem um homem morto.

— Fui eu, vó? — sentiu a voz embargar de arrependimento — Eu matei esse homem?

Ela largou a vasilha em cima da bancada, caminhou até o neto e afastou sua franja do olho, com misericórdia.

— Provavelmente...

Desesperado ele levava as mãos ao rosto, tentando identificar quando foi que tinha deixado esses impulsos psicóticos tomarem conta da sua alma. E repetia incansavelmente “o que foi que eu fiz?”, “o que foi que eu fiz?”, enquanto girava o corpo de um lado para o outro sem encontrar uma resposta.

— E agora? Fujo? Ligo pra polícia? Enterro o homem no quintal e finjo que nada aconteceu?

— Primeiro você precisa saber o que aconteceu...

— Eu não sei. — ele não conseguia segurar as lágrimas — Eu juro que não sei o que aconteceu, vó. Simplesmente acordei e encontrei a casa nesse estado. E vi o sangue... Mas eu não seria capaz de fazer uma coisa dessas. De matar uma pessoa. Tenho certeza disso. Eu não sei como se faz.

— Matar não é o tipo de coisa que se aprende. A vida é muito mais frágil do que parece. Não vê o meu caso? Bastou uma veia entupir e pluft! Tudo se acabou. Não sei mais falar, andar, cozinhar... Ninguém pode prever essas desgraças.

— Mas seu caso é diferente. Ninguém enfiou uma faca na senhora.

— Isso é só um detalhe.

Júlio olhou para o crucifixo na parede e achou que deveria pedir perdão. Ajoelhou, com o rosto vermelho, e mostrou as lágrimas pra Cristo. Pra que Ele visse o arrependimento escorrendo e fosse misericordioso. Enquanto ele orava, sua avó deixou a cozinha e veio sentar ao seu lado.

— Deita aqui no colo da vó... — não era muito digno um homem de 18 anos deitar no colo de sua avó, mas ele estava cansado demais para recusar o cafuné. E ficaram os dois ali, sentados embaixo do crucifixo, de frente pra parede, de costas pro defunto. De um lado Jesus Cristo, do outro um homicídio.

— Lembro que seu cabelo era todo cacheadinho quando você era pequeno. Era a coisa mais linda, seus cachinhos castanhos. — pausa longa e desconcertante — Pra onde eles foram? — ela passava a mão delicada pelo cabelo do neto, hora ou outra limpando uma lágrima. De repente mudou o tom. — Pra que tudo isso, Júlio? Todo esse álcool, esses comprimidos...

— Não tenho uma justificativa boa o bastante pra isso. Na verdade, eu só queria distrair a razão. Fugir. Porque a realidade era desconfortável demais pra mim.

— E conseguiu?

— Algumas vezes. Mas no dia seguinte, pela manhã, ela sempre voltava. A realidade. E quase sempre acompanhada de vergonha e culpa.

— Você era um menino brilhante. Inteligentíssimo! E lindo! Ninguém era capaz de encontrar um defeito.

— Acho que eu não soube crescer. Só isso. Eu sempre tive alguma coisa aqui dentro, alguma coisa muito grande, como um berro. Mas sempre tapavam minha boca. E eu nunca consegui realmente berrar... Sei lá. Segurar um grito assim, tão alto, deve fazer mal pro fígado.

— Você tem alma de poeta, meu filho. Sempre teve. E gente assim não consegue viver muito tempo. A não ser que se esconda e vá se abafando. De qualquer outro jeito, a tendência é sempre essa. O desamparo. Porque esse não é um mundo pra vocês.

— Mas eu sempre tive tudo. Nunca precisei ficar sozinho.

— Não era suficiente. E não culpe sua mãe... As pessoas não sabem como amparar alguém assim. Tenho certeza que ela fez o possível.

— Eu sei. Ela foi maravilhosa, sempre. Eu é que fiz tudo errado... Fui longe demais.

— É muito difícil saber a hora de parar.

— Mas e agora? E o homem na piscina? O que eu faço com ele?

— Deixa que descanse.

Júlio levantou e limpou o rosto na camiseta. Esperou sua avó ficar de pé e lhe deu um último abraço.

— Obrigado por entender.

Caminhou até a piscina mais uma vez e ficou observando o corpo flutuar, com toda a leveza do mundo. E quis ver o rosto do homem, pra saber como são os olhos de alguém que já não está.

Sentiu a água gelada tocando a ponta dos dedos, alcançou a camisa do morto e puxou com força até conseguir tirar o corpo inteiro da água. Percebeu no pulso, dois cortes profundos. A água rosada criou uma poça e Júlio virou o pescoço do homem com carinho. Primeiro pensou estar vendo seu pai ou irmão mais velho, mas logo reconheceu ali seu próprio rosto. Era ele o homem na piscina. Sempre foi. E Júlio se sentiu aliviado. E se achou bonito, com os olhos fechados.

Dentro da casa, os bolinhos de chuva ficavam prontos.

domingo, 28 de agosto de 2011

Protagonista

Ele gostava de como Ana preparava seu suco de limão. Que não era amargo nem doce. Perambulava entre o desejo e a indiferença. Ele gostava de ver Ana colocar quatro pedras de gelo, a ponto de quase transbordar, e vir equilibrando o copo até o computador.

― Como anda o livro? ― perguntou ela, enquanto tentava enxergar a tela.

― Fluindo...

― Lê um trecho pra mim?

― Ah, você sabe que eu detesto isso. Não tem nada muito definitivo ainda. Eu vou moldando o texto com o tempo ― ele deu um gole na limonada.

― Então me fala da história.

Sérgio abriu um sorriso. Ele gostava de falar sobre seu romance, realmente gostava, mas sabia que o interesse da esposa era forjado. Ana simulava uma admiração absurda para demonstrar cumplicidade e fazer o marido mais feliz. E quase sempre funcionava.

― Bom... É a história dessa menina, Luíza, que acaba se envolvendo com um homem mais velho e descobre que o cara matou uma pessoa no passado. Só que um belo dia toda a sujeira vem à tona, com uns criminosos bem barra pesada que aparecem na vida do casal. E Luíza está tão apaixonada e cega que começa a cometer uma série de crimes com o amante. ― ele respirou fundo ― O problema é que eu não sei como terminar. Quer dizer... Eu sabia como terminar, mas tive uma ideia diferente pro final. E isso tem me incomodado.

― Como era o final?

― Ah, ela tentaria sair desse submundo em que se meteu, mas não conseguiria.

― Ela iria morrer?

― Talvez. Mas agora tive uma ideia mais interessante. Vê se não é cafona... Ela entraria tão fundo, mas tão fundo na criminalidade, que acabaria matando o próprio amante.

― Eu prefiro que ela morra.

― Por quê?

― Não sei. Como é essa Luíza? Tipo... Fisicamente?

― Ela é loira, alta, tem os cílios longos, boca carnuda e os olhos amarelados.

― Ah, claro. ― Ana saiu de perto do computador, pisando forte, e começou a lavar a louça na cozinha, enquanto berrava de lá ― Claro que a protagonista da sua história seria o completo oposto da sua esposa.

― Como é que é? ― Sérgio levantou, seguindo Ana.

― Ah Sérgio, você não tá vendo? Você criou uma ninfeta! Uma ninfeta com todas as qualidades que eu não tenho. E fica escrevendo cenas eróticas pra satisfazer seu desejo reprimido ― sua voz começava a atingir um tom ameaçador.

― Eu não acredito que você está com ciúmes de uma personagem!

― Estou! Quer saber? Estou morrendo de ciúmes da Luíza! E de como ela é brutalmente mais bonita, charmosa e interessante que eu.

― Mas isso é óbvio! ― Sérgio falava rindo, pra deixar claro o absurdo que era brigar por esse tipo de coisa ― Ela foi criada pra ser interessante. Ela não existe.

― Não interessa! Pra mim, você não tem coragem de cometer um adultério de verdade e fica usando seus personagens. Chega a dar nojo. Ou pena.

― Mas Ana... Eu sou um escritor.

― Você não é bosta nenhuma! ― ela largou a louça, deu um giro de 180 graus e encarou Sérgio de forma assombrosa e cinematográfica ― Você é um professor de português que toda noite brinca de ser escritor. Você não é um escritor, Sérgio...

― Eu não vou discutir isso com você. ― ele voltou a sentar no computador, e continuou de lá ― Pra você ter uma ideia, nem cena erótica meu romance tem. Eu sempre tomo o cuidado de interromper a narração antes que as coisas esquentem. Vou até a moça ficar de sutiã e então aperto o “enter” e começo um novo parágrafo.

Ana não disse mais nada. Terminou de guardar a louça em silêncio e foi para o quarto, com os chinelos arrastando arrependimento. Não aguentou cinco minutos de televisão. Voltou ao computador. Sérgio fingia escrever.

― Desculpa. Acho que fui um pouco imbecil.

― Vou ser obrigado a concordar. ― E os dois riram, fazendo do riso a bandeira branca.

― Não leva a sério essas coisas que eu falo.

― Eu realmente não sei no que acreditar. No fundo acho que você tem essas explosões de sinceridade e depois se arrepende...

― Não. Não é verdade. Isso não é sinceridade. Eu só tento te ferir...

― Você consegue.

― Eu sei. Desculpa, tá?

Mas esse carinho culpado era uma das coisas que Sérgio mais abominava na esposa. Essa capacidade de falar o que quer, se arrepender e vir toda melindrosa, arrastando os dedos na nuca e pedindo perdão enquanto tenta roubar meia dúzia de beijos. E a partir daí Sérgio era obrigado a parar o que estava fazendo e cumprir seu papel. Porque sabia que a mulher não aceitaria qualquer sinal de desprezo. E porque precisava parecer interessado e apaixonado, o que fazia muito bem. Tão bem que Ana era frequentemente surpreendida, cinco minutos depois, com as pernas suspensas na cama e os olhos fechados de prazer.

Naquele dia ele deixou um capítulo inacabado e foi ou arrastando ou sendo arrastado para o quarto. A televisão ainda ligada. Prendeu os cabelos de Ana com as mãos e foi percorrendo seu pescoço com a língua até parar diante da camisola cor de arranque-me. E arrancou. Cuidadosamente, mas demonstrando desejo. O sutiã branco, que tanto lhe agradava, não durou vinte segundos.

Com o tempo, a casa foi ficando pequena demais para Ana e Luíza. Sérgio escrevia cada dia mais e com mais empolgação. Parece que a história finalmente estava tomando forma. E o que antes se resumia às noites de tédio, agora aparecia em cada intervalo ou refeição. Ana caminhava pelos corredores trombando em olhos amarelados, se enroscando em cabelos loiros e afundando em bocas carnudas. Por vezes chegava a ouvir a voz de Luíza, saindo de algum lugar entre a tela do computador e a cadeira.

Já não tinha mais suco de limão.

E o romance parecia não ter fim, de modo que Ana acabou esgotada. Disse que iria embora, que a situação estava insustentável. Sérgio pediu, explicou, ouviu, não entendeu, e acabou permitindo que sua mulher deixasse a casa com uma mala de viagem e a promessa de voltar durante a semana pra buscar o resto das roupas.

Foi Ana quem pediu a separação, mas ela tinha certeza que, na verdade, tinha sido expulsa de sua própria casa por uma personagem. Quando estava saindo, de mala na mão, parou no meio da rua, olhou para a janela da sala e percebeu uma silhueta feminina na cortina. Era Luíza. Magra, alta e cheia de conexões criminosas, ela consolava Sérgio que, de cabeça baixa, parecia chorar. Olhando bem, ele poderia estar só tirando os sapatos. Foi quando Ana ouviu um berro estridente de dor e graça. Agora percebia com clareza: o marido e a protagonista estavam às gargalhadas. Rindo dela. Ou será que eram lágrimas? Não, gargalhadas.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

O Jardineiro

Quando Frederico chegava, toda a casa ainda estava dormindo. O casal no andar de cima, entre lençóis de cetim, e as empregadas na dependência, em beliches pouco confortáveis. Frederico tinha uma cópia das chaves, que usava para abrir o portão diariamente, às cinco e meia da manhã. Precisava chegar mais cedo, para trocar as flores de todos os vasos da casa antes que os patrões acordassem. Marta gostava de flores vivas, ainda com o orvalho da manhã, e por isso contratara um jardineiro.

Frederico sofria com as dores na coluna e tinha as unhas encardidas de terra, mas aos 65 anos não se pode ser muito exigente com o emprego. Dono de uma habilidade natural para a botânica, ele aprendera desde cedo a lidar com caules, pétalas e folhas. Sabia exatamente o que cada espécie precisava para crescer e, como um pai atencioso, regava cada uma delas conforme sua sede.

Passava o dia entre gerânios, tulipas, flores do campo e algumas roseiras; plantando, podando e acariciando sua criação. Às vezes confundia as coisas e, enquanto passava os dedos por uma rosa vermelha, se imaginava acariciando o rosto de Marta. E cheirava a flor sem saber se o perfume que sentia vinha da rosa ou da patroa. Aproveitava a ausência de Juliano, que passava o dia no trabalho, para observar Marta pela casa. Marta e a xícara de chá, Marta e sua revista Vogue, Marta e o telefone celular, Marta e suas amigas ricas... Nunca Marta e Frederico.

Certa manhã, tomado de absurda coragem e virilidade, o jardineiro decidiu fazer um agrado. Enquanto atravessava a sala, carregando uma dúzia de flores no braço, deixou uma rosa branca cair em frente ao sofá. Marta, que ainda de camisola lia o jornal, percebeu o descuido.

— Frederico... Uma rosa caiu aqui. — disse ela, estendendo a flor para o jardineiro.

— Ah, fica pra você. — ofereceu ele, apreensivo. Ela sorriu.

— Obrigada. — e largou a flor em cima da mesinha de centro.

Frederico tinha dado uma flor para Marta. E passou o resto do dia abobalhado, pensando no que a patroa pensava. Se ela finalmente começaria a ver o empregado com outros olhos, se guardaria a rosa branca debaixo do travesseiro para cheirar antes de dormir, ou se deixaria a flor esquecida na mesinha de centro, quando saísse pra academia.

O velho continuou com a brincadeira. Vez ou outra deixava uma flor cair pelo caminho, fazia um arranjo diferente, ou espalhava pétalas pelo banheiro. Sempre calado, confiante no poder das flores. Até que um dia, pouco antes do sol se pôr, Frederico fez sua aposta mais ousada. Preparou um buquê. Um buquê de rosas vermelhas. E deixou sobre o criado mudo de Marta, enquanto ela tomava banho. Foi pra casa como um adolescente apaixonado.

E no dia seguinte foi despedido. E humilhado. Juliano não havia gostado nada da surpresa do empregado. E chamou Frederico de velho tarado. Acertou as contas, mandou sumir e que nunca mais olhasse pra sua esposa. Frederico obedeceu.

Já em casa, ele decidiu se vingar. E começou a preparar suas ferramentas. Afiou a tesoura de jardinagem, limpou a enxada, preparou o serrote e guardou tudo na maleta de trabalho. Não sentia medo. A certa altura da vida, se tem muito pouco a perder. E Frederico não tinha nada.

Chegou às cinco e meia da manhã seguinte, como em um dia de trabalho qualquer. E com o coração explodindo de adrenalina, ajoelhou em frente a uma roseira. Abriu a maleta, tirou a tesoura e, com enorme frieza, degolou uma flor. Respirou fundo e, calmamente, começou a cortar todas as flores do jardim, num doloroso exercício de sadismo. Primeiro com a tesoura, sem sujar as mãos, depois com a enxada, enquanto ia se transformando em animal. Aos poucos, Frederico destruiu tudo o que por anos cultivara. Folhas, raízes e pedaços de caule voavam. As plantas, esquartejadas, pareciam gemer. E a raiva do jardineiro já não cabia em ferramentas. Largou a enxada e foi, com as próprias mãos, terminar o serviço. Estraçalhou cada uma das flores daquele jardim, e atacou as roseiras, sem se preocupar com os espinhos. Acabou deitado entre os corpos, exausto. As mãos sujas de sangue e pétala.