quinta-feira, 9 de julho de 2015

O Homem que Fazia Espelhos

Gio não lembra com que idade fez o seu primeiro espelho. Ainda tinha os olhos da mãe quando se viu refletido num deles. Era pequeno e levemente côncavo da metade pra esquerda, mas isso segundo os padrões da família; para o resto da gente era um espelho quadrado perfeitamente ajustado. E aquele era, se não o primeiro, um dos cinco primeiros que Gio finalizava sem a mãozona do pai. Os espelhos que viessem depois, perderiam esta falha. 

Às vezes Gio era surpreendido por paisagens refletidas. Enquanto lia no sofá, com os braços formando um triângulo, cabeça apoiada no punho e a boca semiaberta, de repente tinha sua atenção roubada por um menino idêntico, também no sofá, também lendo um livro, também prestes a ter sua atenção roubada por um menino idêntico até que o menino sumia e o pai dele ia andando porta afora com o espelhão debaixo dos braços. 

Um dia viu o pai amarrando um do tipo oval de quase três metros de altura na traseira da caminhonete. Esse aqui vai pro reitor, ele disse. E o menino, que mesmo sem entender, percebeu a importância, reparou melhor no espelho. Tinha molduras cor de ferro, que iam e vinham dos polos, se enroscando feito erva no vidro. O céu estava limpo, com exceção de uma única nuvem, e felpuda, que, por pura canalhice, o dito espelho refletia. Foi ali que Gio se decidiu espelheiro. Queria um dia chegar a fazer um gigante daqueles, com o refinamento de certos espelhos que, não satisfeitos em refletir a verdade, acrescentam a ela uma autenticidade inédita. Gio faria espelhos! Tão grandes ou maiores que esse! Seriam disputados aos tapas por reis, rainhas e reitores. E serão mais detalhados que o próprio olho humano! Não se esqueça, é de um espelho fantástico que estamos falando. 

Conforme o pai ia envelhecendo, o trabalho de Gio aumentava. Agora ele era responsável por encaixar os espelhos nas molduras, organizar os pedidos, fiscalizar a produção (às vezes ele mesmo fazia o espelho), realizar as entregas e... bom, também não era exatamente uma fábrica ultra equipada, com dois turnos de funcionários trabalhando ininterruptamente; era uma casinha miúda com dois homens fazendo vidro. O que um não fazia, o outro tinha que fazer. E o um, pelo que se conta, vinha fazendo cada vez menos. 

O pai de Gio morreu, como é dos pais de heróis morrerem, mas o moço a essa altura já andava ocupado demais com seus sonhos refletidos. Não era hora de parar a produção; não agora que as molduras vinham finalmente se ajustando às medidas do vidro. Gio já podia até ver uma barba silenciosa a se espalhar pelo queixo e seu maxilar era agora de homem. Gostava dos seus olhos claros, de como mudavam de cor dependendo da hora, o que lhe garantiria uma eternidade de entretenimento em frente ao espelho. Hoje está verde-água, hoje, esmeralda... e assim por diante. 

O olho dele estava azul quando aconteceu o acidente. Carregava cerca de cinco espelhos retangulares, separados por pedaços de papelão, bem ao lado da cabeça. E subia degrau por degrau de uma escadaria infinita, num prédio sujo e apertado. Com os vidros enormes lhe aporrinhando a visão, Gio achou que já tinha chegado no andar certo. Mas não, porque as linhas abaixo do espelho e as linhas acima da escada, todas se misturavam, escondendo o nível final. É difícil dizer se os espelhos caíram em Gio ou se Gio caiu nos espelhos. A única certeza é que os dois estiveram juntos, e por muitos degraus; tanto que os olhos de Gio, na hora, deixaram de ser azuis. 

Ele agora tinha a cara da morte. Metade de uma sobrancelha tinha sido completamente arrancada pelo vidro. De um olho ele não via nada. A boca se repartira em duas, uma querendo sugar a outra. As bochechas deram lugar a uma coleção de galhos e ranhuras vermelhas, rosas e roxas e verdes e pretas. Ele não conseguia segurar a saliva na boca, o que lhe dava esse aspecto empapado constante. 

Gio até tentou fazer novos espelhos, mas percebeu que, por maiores e mais límpidos, todos, assim que prontos, refletiam a mesma coisa, e que a vinha a ser ele próprio. Olhava para o reflexo e tinha como que um refluxo. Era grotesco, incompleto, babão. Aquela era a última paisagem que ele queria ver refletida num espelho que criara e, ao mesmo tempo, era impossível fugir dela. 

Resolveu compensar na moldura. 

Durante meses Gio criou os mais belos modelos de borda, mas, assim que instalava o espelho, o reflexo voltava a exibir a mesma paisagem de antes. Aquilo distraía, tirava a atenção; profanava o vidro de tal forma que os reflexos seguintes estariam invariavelmente amaldiçoados. Até que ele começou a fazer espelhos que distorciam a realidade. Descobriu que pequenas alterações na envergadura produziam efeitos ainda mais alterados. Um dia criou um espelho gigante que lhe transformava em um ser achatado. As cicatrizes do rosto passavam imperceptíveis diante de figura tão imprevisível. Se apaixonou pelo resultado daquelas brincadeiras de entortar. Começou a preencher a casa com espelhos que lhe deixavam obeso, magrelo, girafo, sapão... até que um dia se viu cercado por tantos, que não conseguiu mais encontrar a saída. Sua morte foi refletida de 32 maneiras diferentes.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Jogue Suas Mãos Para o Céu

Ela gostava de deitar embaixo de uma árvore gigantesca e secretamente chamá-la de seu salgueiro lutador. A árvore era antiquíssima e vivia a duas quadras da casa dela. Sempre passava, não por ela, mas pela rua dela, quando ia andando pra escola. E podia ver de relance, entre um telhado e uma antena, seus galhos bisonhos, cheios de si e selvagens, prestes a dominar quase tudo. Gostava da árvore e era uma criança que lia muita bobagem.

Levava sua canga, seus panos todos. Tinha duas almofadas de um couro bravo, que não sujava por nada, e sabia encaixá-las exatamente como duas asas nas costas. Deixava as almofadas quietas, entre ela e o salgueiro. Abria um livro.

O lugar foi escolhido de propósito; tinha sua sombra inevitável, sua distância segura e era perfeito pra ela, que não só era romântica, como também nascera com um talento único para a composição de ambientes forjados, cenários construídos, que reuniam uma gama tão grande de prováveis focos de inspiração e beleza, que o lirismo era praticamente obrigado a descer pela gola.

Aquela árvore devia abrigar umas sete famílias de pássaros. Todo santo dia, quando ela chegava, a revoada fervia. E depois de acomodada, com as duas asas nas costas, via cada passarinho, um a um, voltar pro galho, já que não tinha perigo. O canto não era dos lindos, mas tinha seus picos de glória, num pio doce e alongado, que hora ou outra irrompia.

Mas como nem tudo são asas, cantos de ave e salgueiros, a menina acabou se perdendo por um caminho estranho. Começou a ler muita coisa cheia de vida e verdade. Começava a olhar pro mundo, com uma lente alterada. Não como se danificada, mas como se enfim resolvida. E tudo doía demais.

Até que um dia se deparou no metrô com uma senhora bem gorda, com as pernas completamente estouradas. Pareciam veias de um gigante, aprisionadas numa perna maciça. Algumas saíam pra fora, numa flor enorme e roxa. Outras circulavam a panturrilha como um lagarto marinho alongado, do qual se viam umas pontas e, ela jurava também, o sangue passando no meio.

Olhando pro rosto da dona, se comoveu num segundos com aqueles olhos imensos, doentes de tristes. A mulher da perna estourada, ela tinha os olhos exatos e comuns de quem já vinha lutando há tanto tempo que já nem se lembrava ao certo se tinha algum prêmio no fim.

Foi ali, naquele instante, que a menina sentiu a lágrima de um olho descer, por compaixão mais pura e simples, e junto com ela uma pele minúscula, rolando bochecha abaixo. Foi tentar recolar sua pele, mas o trem tremelicou e ela esbarrou os dedos na cara, voltando com metade do rosto nas unhas.

Disseram que tinha uma doença obscura. Hanseníase simbólica, ou hanseníase literária (ou ainda, em alguns condados, lepra poética). Era bom evitar o contato dos seus livros com a mão de qualquer pessoa. Ela devia queimá-los e manter uma distância segura de qualquer amigo ou irmão. Não era bom que falasse por mais de cinco minutos. Não era bom que apresentasse trabalhos, que publicasse na internet, que escrevesse poemas. Essa doença é terrível e contamina bem fácil.

Numa outra viagem de trem, esbarrou com um rapaz de olhos tão misteriosos quanto irresistíveis. Nem precisou chegar muito perto para sentir uma dorzinha de nada apontar na agulha, mas, não satisfeita com o trombo, foi atrás escada acima. E eles viveram uma coisa tão boa, que ela se esqueceu do salgueiro, deixou seus livros de lado e manteve a boca fechada.

Até porque num segundo nem boca mais ela tinha. Bastaram dois beijos para que ela se descolasse inteira, beiço e tudo, nos lábios daquele rapaz. E ele levou a boca dela. Levou também sua voz tão quieta, e aproveitou pra cantar.

Era verdade que a moça já vinha andando calada, mas sem a boca no rosto, era difícil comer. E sem comida pra comer ou voz pra cantar, ela se meteu num silêncio muito magro e discreto, no canto da sala de estar. Passavam por ela e olhavam, cheios de pena e ternura, e ela sentiu que começava a escorrer, braços pernas, virilha afora e que ela precisava sair dali, antes que fosse só água.

Foi atrás daquele rapaz, dos olhos fechados em si, e, na falta da boca, teve que usar muito os braços e as duas mãos e os dedos, de modo que não levou muito tempo até que ela fosse só um toquinho simpático com duas pernas fincadas.

Voltou pra casa pensando em todas as partes que tinham ficado pra sempre nas partes daquele rapaz. Nas partes que estavam perdidas e que, pra falar bem a verdade, já nem lhe faziam mais falta. Com os joelhos e os dedos do pé ela juntou os seus livros; os poucos que ainda restavam, os que ela não tinha queimado, e foi com eles pra árvore, sedenta por distração.

Não fosse a chuva miúda que começava a cair, talvez ela até pudesse ler por mais uns dias. Ela já conseguia passar as páginas com o dedão do pé esquerdo. E as almofadas nas costas, cada vez mais, lembravam as asas de uma mariposa, com o corpo dela no centro, em vez do de uma lagarta. Mas além da chuva ainda tinham as aves, que vendo escorrer certo leite, foram atraídas num salto para os olhos da nossa menina. Esses olhos tão vivos e espertos, a percorrer muitas linhas, eram as únicas partes que ele ainda não tinha roubado. E os pássaros começaram a bicá-los, enquanto ela ia formando na mente a última frase possível.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Clara, a Grande

Acendeu a tela do celular com a mão direita e viu que já passava da meia-noite. Antes de mais nada, é preciso explicar que Clara era uma exceção. Pra quase todas as regras germinadas nesse mundo, Clara era sempre uma exceção. Ela também era importante; especial, até. Seu tempo valia ouro, ela via de cima, ela previa as coisas e ela fazia feitiço. Ela também era gorda.

Assim que ela viu as horas, seu primeiro impulso foi fingir que não tinha visto e continuar navegando pela internet (embora o termo mais apropriado seja “dando cabeçadas”), mas a grande Clara, a que era cheia de importância, já havia sido acordada de seu sono irresistível. E essa mesma Clara, que não só se julgava importante, como realmente era, não conseguia contornar o absoluto e terrível fato de que já passava da meia-noite. E que ela precisava dormir logo, se não agora.

Ela até pensou em começar um filme, porque ao menos era uma coisa útil a se fazer de madrugada. Mas um filme começado àquela hora, ia, no mínimo, até umas duas... e aí já ficaria tarde demais pra Clara dormir. Não que ela não gostasse da noite. Ela inclusive amava. Mas no dia seguinte teria aula e levantaria às sete. É... melhor nem começar a ver esse filme. Daqui a pouco eu vou dormir. Só mais uma olhada nas fotos da Paula.

Clara tinha os cabelos vermelhos, pintados com tinta barata pela vizinha um pouco mais velha; e seu rosto era redondo como o universo. E agora eu não vou começar a dizer como a Paula, por outro lado, era gata e parecia a porra de uma top model em todas as fotos que colocava no facebook. Apesar de que era exatamente isso. Mas eu não vou dizer. Porque não faz diferença. Porque, na verdade, Clara não conseguia se sentir pior que ninguém. Ela olhava pra foto linda da senhora perfeição, enxergava a beleza, enxergava a perfeição e automaticamente começava a listar na cabeça todas as outras setecentas qualidades que a colocavam acima de Paula, não no quesito beleza, obviamente, mas em quase todo o resto. No fim das contas, o fato dela ser bonita parecia mais como uma esmola ou um prêmio de consolação.

Uma segunda olhada nas horas, desta vez no canto da tela do computador, e o horror bem ali, estampado. Já eram duas e quinze da madrugada! E ela começou a se sentir farta, antes mesmo de se sentir vazia. E desejou voltar atrás e ter visto o filme, porque ele já teria até acabado. Mas agora era tarde demais, melhor nem começar. Na verdade o que não podia era exatamente começar. Ela tinha que dormir. Só precisava despedir de duas pessoas com quem trocava mensagens.

A primeira delas era um menino do terceiro semestre, que parecia inteligente, mas que acabou se revelando, através de um “concerteza”, uma das piores fraudes daquela universidade. A segunda era sua própria irmã, que estava acordada no quarto ao lado, provavelmente travando a mesma batalha contra a madrugada e suas horas gulosas.

Mas como tempo é ventania (e vasto é o mundo), essa despedida acabou se estendendo um pouco e pairando por links misteriosos, vídeos secretos e receitas de macumba. E agora ela até podia ver ali as horas passando: minuto por minuto, sem qualquer surpresa, cada um deles como uma pequena espetada de florete, esperada e temida. E mesmo assim, alguma coisa de outro mundo mantinha sua enorme bunda deliciosamente acomodada na cadeira e seus olhos perdidos, diante de uma tela por onde passava uma infinidade de nada.

Foi quando aconteceu. Como que um resgate abrupto de alguém que há anos se encontrava caído num poço fundo, a ideia veio e ergueu a alma de Clara, lhe acordou de um pesadelo e tudo ficou cheio de luz e promessa. Ela só precisava ser realista: já que não iria dormir, e isso não dependia só dela, por que não aproveitar o tempo? Era isso! Ela iria parar tudo e dar play no filme. Porque ela jamais se perdoaria se visse passar diante dos seus olhos mais duas horas de coisas que ela poderia ter feito e não fez. A vida dela já vinha sendo formada por um bom número de horas assim. Dessa vez ia ser diferente.

Então ela fez o que devia ser feito. E cheia de uma energia vital, começou a procurar pelo filme. Parecia renovada com essa perspectiva inédita de madrugada. Tudo estava quieto e misterioso, quando ela se acomodou, deu o play e, oito minutos depois, dormiu.

sábado, 6 de julho de 2013

Uma Questão de Retina

Ela estava de pé, em frente ao assento preferencial do metrô, enquanto ele dividia o mesmo com uma senhora de obesidade mais ou menos mórbida. Ela reparou nele. E reparou que ele era algo muito próximo de lindo. E que tinha os olhos marrons. E que tinha o rosto levemente inclinado pra ela, como um convite.

Começou a se exibir com uma naturalidade perversa. Mudou a posição das pernas, se inclinou um pouco pra frente, fechou os dedos em torno do mastro de metal e sorriu. E ele não viu. Parecia extremamente distraído com alguma coisa que dançava no ar entre ela e o resto do trem. A necessidade de ser vista crescia. E a conexão existia, ela podia sentir. Era só uma questão de retina.

Usou de uma estratégia mais ousada e abriu o primeiro botão da camisa como que tomada por um calor repentino. Ela era toda perigo. Sentia os solavancos carinhosos dos trilhos percorrerem suas pernas, subirem pela virilha e se instalarem exatamente ali. No coração. Mas o contato visual continuava inexistindo.

A gorda acordou do seu cochilo, limpou a boca molhada, esfregou os olhos remelentos e desceu na estação seguinte, deixando o assento vazio. O jovem de olhos marrons continuava imóvel, olhando pro mesmo lugar que não era ela.

Foi quando, cheia de coragem e ardor, ela se aproximou. E quanto mais perto chegava, mais clara se tornava essa piada trágica do destino. De que os olhos dele, além de marrons, eram também opacos. E mortos. E que ela poderia abrir, um por um, todos os doze botões da camisa, que ele continuaria sem ver. A bengala ali, repousada ao lado do banco, onde sempre esteve.

Sentindo-se culpada e triste, ela sentou do seu lado. Mais por preguiça que por interesse. E, contrariando suas expectativas, ele virou o rosto pra ela. Os olhos estavam na reta, mas continuavam sem acertar o alvo. Alguma coisa de indescritível existia ali. Ela podia sentir, ele também.

Tocaram na mão um do outro. Primeiro de forma carinhosa, como um cumprimento; depois de forma apaixonada, como um terremoto. E ela estava chorando e sorrindo quando ele começou a tocar seu rosto com a mão esquerda, como alguém que procura um interruptor inexistente. A mão direita ele enfiou no bolso e trouxe de lá uma adaga prateada. Fez um movimento profundo, letárgico e começou a furar um dos olhos de sua nova amante. E ela permitiu, com uma resignação admirável. Sentia o sangue escorrer pelas bochechas, mas não conseguia sentir dor. Nem medo. E depois ele furou o segundo com o mesmo amor com que furara o primeiro.

E só então ela percebeu que ele tinha visto o sorriso, o decote e tudo o mais. Que durante toda a viagem, era ela quem estava cega.

E agora eles podiam se ver.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

As Razões Pelas Quais Vou Ficar Sozinha

Já eram três da tarde quando Mateus chegou com seus passos largos, pedindo desculpas pelo atraso e desarmando o mundo com seu sorriso bobo. Tinha a aparência impecável, apesar do sol e do ônibus. Não suava, não tinha espinhas e nunca parecia desconfortável. Era uma divindade estranha, sempre flutuando ao redor da humanidade sem muita pressa ou interesse por qualquer coisa que não fosse ele próprio. Encontrou Débora sentada no chão, embaixo da árvore preferida, visivelmente desapontada.

– Eu tava na casa do tio Cláudio até agora, acredita? O almoço só foi sair uma e meia. Foi mal...

Tudo bem, mas ela teve que começar sem você.

Débora estava de preto e bebia um vinho barato direto do gargalo. Tinha uns olhos redondos e ofensivos. Cabelos vermelhos, do tipo fino e macio, e era magra e bonita de um jeito quase imperceptível. Eles tinham terminado há dois anos e desde então vinham tentando criar uma relação amistosa. 18 anos de idade, vai... Eles ainda podiam insistir no erro.

Mateus era um espírito livre, tragicamente perdido. Mantinha os cabelos negros e lisos perfeitamente alinhados acima dos olhos. A pele branca e a boca vermelha davam esse ar vampiresco que encantava e causava repulsa na mesma medida. Ele também não entendia porque continuavam marcando esses encontros.

– Eu tava aqui pensando nas razões pelas quais vou ficar sozinha.

– Ah. – Mateus virou os olhos, se acomodou, acendeu um cigarro.

– É sério. Eu cheguei a umas conclusões. Por exemplo: eu me apaixono. Acho que é a principal razão.

– Mas Débora... Não tinha outro assunto? Eu não quero discutir isso com você de novo. Não vou ficar aqui enumerando suas qualidades e tentando te convencer do tanto que você é maravilhosa...

– Não precisa. Eu conheço minhas qualidades. Não tô dando uma de gótica melancólica que bebe vinho às três da tarde e acha que a vida não vale a pena. Só tô dizendo que quem não se apaixona, não sofre. Inclusive parabéns.

– Oi?

– Parabéns por conseguir nunca se apaixonar por ninguém.

– Ah, obrigado.

E eles fizeram um silêncio. Mateus soltava a fumaça cada vez mais pesada de rancor e Débora começava a sentir o efeito do álcool em seus olhos molhados.

– Eu não sou interessante. Por que alguém ficaria comigo? Sou completamente normal. Previsível. Morna, como um vômito. Então eu poderia até beijar na boca de vez em quando, porque meninas normais beijam na boca de vez em quando, mas nunca conseguiria alguém suficientemente bom que se interessasse em ficar comigo pra sempre. Eu mato as pessoas de tédio, Mateus. Olha pra você... Não tem cinco minutos que chegou e já tá babando de emoção.

Mateus continuava calado, fumando o espanto pela moça ruiva e inocente que agora parecia queimar sobre o fogo de si mesma.

– O que mais? Eu tenho ciúmes. Isso mesmo. Tenho. Desculpa. Não posso fazer nada se, pra mim, amar é também ter medo de perder. Nunca vi sentido em gente sem ciúmes. E penso em casamento, porque também não vejo sentido em amar e ficar longe. Não entendo quem ama, mas não quer uma proximidade doentia. Não entendo quem ama e não quer apertar, sufocar, engolir o outro.

Débora estava com as bochechas vermelhas de calor, mas o céu começava a escurecer. Eram três e meia da tarde e a lua já aparecia. Ela reparou no fenômeno, mas achou tolo interromper um assunto sério daquele para comentar que o sol estava se pondo às três e meia da tarde.

– Mas na verdade – ela mudou o tom de repente, como se toda a sua doçura tivesse ido embora com o sol. Pegou o cigarro recém-aceso da boca do ex-namorado, deu um trago e continuou a falar, mas dessa vez com violência – eu percebi que nada disso era culpa minha. Que o problema não era meu. Nunca foi. Você era o problema. Você estava errado. Você que, por algum trauma ou deficiência, nunca conseguiu amar alguém.

– Você tá sendo dramática, absurda. Um pouco ridícula até.

– Talvez. Mas eu sou dramática, eu sou ridícula... Cansei de tentar dizer as coisas de um jeito mais natural, mais leve, sem machucar ninguém. Porque eu tenho aqui, Mateus, trezentas toneladas de puro absurdo. Você não faz ideia de como é difícil tentar me controlar do seu lado pra não parecer cafona, pra te manter entretido, pra não te assustar. E, olha, sinceramente... eu cansei. Agora você que aguente todo esse peso. Você tem braços fortes, mocinho.

E Mateus, sempre tão cheio de argumentos, tão racional, lógico e óbvio, ficava calado, porque percebeu o perigo de uma Débora cansada. Porque percebeu que esse momento era dela. Que ele nem deveria estar ali e não faria diferença argumentar. Ela sabia que ele estava certo, ele sabia que ela era louca e isso não mudava em nada a certeza ou a loucura.

A moça continuava seu discurso, engolindo a fumaça e falando ao mesmo tempo, desafiando a lógica, prestes a chorar.

– E, por favor, me explica o porquê dessa insensibilidade. O porquê desse medo. Eu juro que não entendo. Não sei como alguém consegue ser tão frio e sem carinho. Tenho até pena, sabia? Porque alguém assim deve sofrer bastante. Como é manter todo mundo a quilômetros de distância? Como foi namorar comigo por anos e não se permitir nenhum tipo de demonstração sincera de afeto? Valeu a pena? Você tá intacto, tá lindo... É isso que importa, né?

Mateus não olhava pra ex-namorada. E ela chegou a pensar que ele estava arrependido, que iria lhe pedir desculpas, com os olhos cheios de lágrimas, e lhe beijaria a boca. E lhe tiraria a roupa. E transariam na beira do lago como jamais transaram. Em vez disso, ele observava um besouro perneta e suas tentativas desesperadas de ficar de cabeça pra cima.

– Você. Sempre você. Você e seu egoísmo. Você e sua família perfeita e seus almoços de família perfeita que sempre atrasam tudo. Você e sua mania de grandeza. E sua facilidade de convencer todo mundo que é bem melhor, mais talentoso e mais legal do que realmente é. Deixa eu te falar, Mateus: você não é grande coisa. Você tem medo! Você é uma criança assustada, desesperada por amor. Você quer ser amado mais que qualquer coisa e, por isso mesmo, não consegue amar.

Duas ou três lágrimas já estavam rolando no rosto de Débora, Mateus continuava olhando pra baixo. Ela esticou o tronco até ficar a poucos centímetros dele:

– Olha pra mim!

Ele não olha. Não tem coragem. Ela segura o rosto dele com as duas mãos, o obrigando.

– Olha pra mim!

E chora. Chora copiosamente. Chora lindamente. Se derrama inteira pra ele. Ele assiste tudo, como um filme ruim. Desconforto. Culpa. E Débora ali, a poucos centímetros, executando finalmente sua vingança, sua tortura.

Nem quatro da tarde e o céu já estava completamente escuro. Os postes ainda apagados, porque estão programados pra acender às seis e também porque o governo não fazia ideia de que justo naquele dia o sol ia se por às três da tarde. E porque o mundo tava acabando e ninguém se deu conta. Só Débora.

– Fala alguma coisa! Por favor! Tenta se explicar. Diz que eu tô viajando. Não me deixa acreditando que tudo o que eu falei era verdade. Faz como você sempre fez. Inverta tudo, transforme tudo, mas me deixa confortável com uma mentira sincera. Por favor. Fala alguma coisa!

E dessa vez ele não falou. Não houve conforto. Nem mentiras sinceras. Nem qualquer outra referência à MPB. E Débora virou o que restava da garrafa de vinho, respirou fundo, abriu a bolsa e tirou de lá um revólver. Como quem tira um espelho.

– Que isso, Débora? Onde você arrumou essa arma?

Sem jeito, mas também sem tremer, ela arma o tambor e oferece o revólver para Mateus.

– Eu já tô morta. O que você vai fazer agora é uma espécie de eutanásia.

Mateus permanece incrédulo, olhando da arma pra Débora, esquecendo até mesmo do besouro perneta. E ela agora parece linda com aquele revólver na mão. Tem os cabelos tão ruivos e é tão segura de si, perigosa e dramática, que ele jamais ousaria chamar de ridícula.

Ela coloca a arma na mão de Mateus.

– Vai. Isso não é um assassinato. É um suicídio assistido. É que eu realmente gosto do jeito que você me machuca.

E ele, meio sem pensar, meio pensando demais e reconhecendo o absurdo de tudo e a importância de nada, coloca a arma na cabeça de Débora. Mas coloca com um carinho inédito. Se olham pela última vez. E naquela fração de segundo se perdoam por tudo. Pelo ciúme, pelo egoísmo, pelo medo e pela tortura. Ela fecha os olhos com um prazer pornográfico. Ele aperta o gatilho com o mesmo prazer.

O barulho do tiro faz outros dois besouros ficarem de cabeça pra baixo.


Débora só foi encontrada horas mais tarde, com o revólver na mão direita e a cabeça estourada. E Mateus nunca chegou. O almoço atrasou tanto que ele desistiu do encontro.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Fase de Latência

A contagem estava começando e tudo o que se ouvia eram passos pequenos, apressados e errantes. Cada criança seguia até seu abrigo com desespero e emoção. Tinham trinta segundos. E a cada número cantado, menos gente se via. Às vezes uma perna, logo mais nem isso. Até que a vizinhança fosse puro esconderijo. As árvores, carros, becos e moitas guardavam seus meninos com compaixão. Eram todos cúmplices de um crime invisível. Silêncio. Silêncio.

Luana tentava prender a respiração entre os arbustos. Sua posição era desconfortável e os galhos lhe rasgavam a bondade pelas costas. Devia ter escolhido outro lugar pra se esconder. De repente Dudu aparece, esbaforido, com cara de socorro.

— Sai, Dudu... Eu já tô aqui. — sussurrou.

— Não dá mais tempo, ele já parou de contar. Vou ter que caber.

Vou ter que caber... Luana achou graça do menino, querendo se enfiar onde, obviamente, não havia espaço. Mas pensou que se não admitisse Dudu, estaria cometendo algum tipo de pecado. Como se fosse dona de um hospital e negasse atendimento a um homem moribundo. Dudu era seu moribundo.

— Que saco... Não tá vendo que não cabe?

— Ah, Luana... Chega pra lá, empurra esse galho. Isso. Pronto.

Os dois conseguiram se espremer entre as árvores. Agora eram obrigados a ficar numa posição terrivelmente vulnerável. Seus pequenos corpos de dez anos estavam amontoados no interior da moita e os galhos e folhas funcionavam como uma cabana escura e volumosa. Lá fora, o menino gordinho começava a procurar.

Os dois ficaram em silêncio. Um silêncio tão grande que chegava a assustar. Cada movimento era um escândalo. Os gravetos não rangiam, berravam. O chão era uma sinfonia de pequenos e tremendos barulhos. Luana estava incomodada. Precisava respirar, mudar de posição, espantar uma formiga, mas Dudu parecia um robô, vidrado, acompanhando o gordinho com a atenção de um predador. Por um momento pensou que brincar de esconde-esconde era mesmo coisa de menino. Eles eram mais rápidos, silenciosos e levavam a brincadeira mais a sério. Ela, se estivesse sozinha, por certo já teria perdido. Não levava muita coisa a sério. Mas Dudu era um guerreiro. Desses impávidos.

Aos poucos Luana percebeu o que lhe ocorria e com espanto se deu conta do absurdo que era estar espremida com um garoto no meio do mato. Pra logo mais, não se espantar. E até gostar. E achar estranho. Abusado. Tinha dez anos e estava espremida com um menino no meio do mato. O horror. Mas Dudu parecia concentrado, só tinha olhos pro jogo. Ele jamais perceberia o que estava acontecendo.

Viu que seu short terminava no meio das coxas, a bermuda dele também, de um jeito que, mais cedo ou mais tarde, suas pernas se encostariam. Acabaram se encostando como um arrepio, mas ele parecia não se dar conta. Estava entretido no jogo. E Luana adorou a sensação da panturrilha dele contra a dela. Quente e áspera, com uma cicatriz do futebol bordando as beiradas. Uma pressionava a outra. Cada vez mais forte.

Dudu tinha o cabelo anelado, mas de um jeito que só é possível se ter aos dez anos de idade, quando os hormônios da puberdade ainda não estragaram a maciez da vida. Seus olhos eram escuros, mas não chegavam a ser pretos. E ele todo era bastante bonito, o que incomodava Luana há dias. Porque ele era bonito, mas parecia não fazer ideia disso. E quanto menos fazia ideia, mais bonito era. E às vezes sorria de um jeito pateta e ficava incrivelmente adorável. Às vezes se irritava com alguém e chegava a esbravejar, mas tinha a língua presa, o que tornava seu discurso engraçado na maioria das vezes. E Luana fingia nada ver por baixo de sua franja marrom. Suas observações e impressões eram silenciosas, como se, admitindo sua admiração por um garoto, tivesse que admitir também que estava crescendo.

Teve seus devaneios interrompidos pelo cotovelo de Dudu, que fincava sua costela.

— Dudu, seu cotovelo tá me machucan...

A mão dele veio tapar sua boca. O gordinho estava a poucos metros. Caminhava lentamente, com um olhar de águia. Os dois prenderam a respiração. Qualquer barulho seria fatal. E Luana pensou que seu coração colocaria tudo a perder. Batia rápido demais, forte demais, fundo demais. O que significava aquilo tudo? Eram os dedos de Dudu que agora estavam em sua boca? Tapando-lhe os lábios? Fazendo tremer? Aos poucos, toda sua sensibilidade fora transferida para a ponta da boca e ela já podia sentir cada risco da pequena mão de Dudu. Sentia o cheiro de menino nos seus dedos e pensou que fosse desmaiar de embriaguez. Era refém. E precisava esperar que o gordinho se afastasse para tentar um acordo pacífico.

— Ufa. Foi por pouco.

Dudu tirou a mão da boca de Luana e tentou ficar numa posição mais confortável. Foi quando ela percebeu, com pavor, uma mancha de sangue nas costas do menino. Enorme, como uma flor. Teve vontade de chorar, mas se controlou. Era preciso falar baixo.

— Sua blusa tá cheia de sangue!

— Quê?

Ele também pareceu assustado. Colocou a mão nas costas para se certificar e voltou com os dedos vermelhos. Sem pensar duas vezes, Dudu tirou a camiseta. Agora dava pra ver o corte. Transversal e reto. E fundo.

— Acho que esbarrei em alguma coisa afiada quando entrei aqui... — ele parecia tranquilo, mas suas costas sangravam. Lenta e continuamente.

Luana não conseguia falar. Sentia-se atordoada e confusa. Olhava para Dudu e só conseguia enxergar seu corpo de criança que, naquele momento, parecia tão errado e desejável. Sua pele clara, o pequeno peitoral infantil que era a promessa de um adulto saudável e forte, o corte nas costas. Tudo vermelho, sujo, suado. E alguma coisa entre suas pernas lhe atraia profundamente. Como um ímã.

— Acho que vou ter que me entregar. Ir pra casa... — disse ele, tristonho pelo fim da brincadeira.

Luana não respondeu. E atendendo a um impulso animalesco e violento, virou Dudu de costas e foi estancar seu sangue. Com a boca. Ele deixou, sem entender muito bem que espécie de técnica era aquela. E ela sugava cada vez mais forte. Sentia o gosto do sangue na boca. Abraçava todo o menino por trás e se sentia vampiresca, mas não podia parar. Teve tonturas de prazer, desfaleceu de tesão, revirou os olhos, conheceu a morte e voltou saciada. Tirou os lábios de suas costas.

— Valeu, mas acho que preciso mesmo ir embora. — Não havia constrangimento entre os dois. Ele sorriu, como se agradecesse o serviço de uma enfermeira. E ela continuou calada. A boca manchada de sangue. Diria pra mãe que comera amoras do pé.

E Dudu se entregou. Foi pra casa carregando a camiseta na mão esquerda e um segredo na outra. Ninguém saberia que ele só havia aparecido ali, no esconderijo apertado, porque momentos antes vira Luana entrando e queria ficar perto dela. E que passara a brincadeira inteira com o coração aos pulos, sentindo seu perfume, reparando em sua pele, sua franja, seus olhos, e que quis perder a vida quando ela beijou suas costas feridas. Mas Luana parecia sempre concentrada, só tinha olhos pro jogo. Ela jamais perceberia o que estava acontecendo.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

O Homem na Piscina

Acordou com a boca azeda, o estômago girando e uma insistente falta de ar. Sentiu o corpo dolorido e as bochechas dormentes pelo contato prolongado com o chão da cozinha. Suas ressacas normalmente não eram assim e, por alguns segundos, Júlio foi tomado por aquele pânico infantil de quem acorda sem saber onde está. Aquela mesma sensação das tardes de domingo, quando cochilava em frente à TV e despertava horas depois, encontrando a casa vazia.

Aos poucos ele começou a identificar elementos de um cenário conhecido: a geladeira antiga, com pequenas ferrugens nas laterais, o fogão azul, onde sua avó fritava bolinhos de chuva, a bancada de mármore, que separa a cozinha da sala de estar e o crucifixo de madeira, com um Cristo retorcido de dor. Ele estava no casarão onde costumava passar os fins de semana; a 40 minutos do centro da cidade.

Depois do AVC de vovó, que culminou na terrível perda dos bolinhos de chuva, o casarão da família passou a ser de domínio público. Nenhum dos quatro filhos queria arcar com as despesas para mantê-la funcionando, mas também não podiam vendê-la. Pelo menos enquanto vovó ainda estava viva. Então os netos aproveitavam como podiam. O lugar estava abandonado, caindo aos pedaços, mas tinha piscina e churrasqueira, o que garantia aos jovens um mínimo de cerveja, sexo e privacidade.

E Júlio, que sempre havia usado a casa sem maiores problemas, dessa vez percebia tudo um tanto longínquo. Ele se lembra de ter chegado de carro na sexta-feira e ligado pra um ou dois amigos, chamado pra beber, mas nada além disso. O chão permanecia cheio de garrafas de vodca, comprimidos e o tempo nublado não ajudava a responder às perguntas. Que horas são?

Ele tentou levantar, mas repentinamente sua vista falhou, o som desapareceu e ele sentiu que estava partindo. E precisava voltar, antes que fosse tarde demais. Sem forças, desabou, espalmando uma poça de sangue. Esperou sentado por alguns minutos até recuperar o equilíbrio e correu os olhos pela sala de estar. Manchas de sangue. Percebeu também uma faca, dessas Tramontinas, de serra, e achou tudo um tanto novelesco. Quem mataria com uma faca de serra?

O rastro levava à parte externa da casa. Ele caminhou lentamente até a churrasqueira, que na verdade era só uma mesa de pedra e quatro bancos em ruína, e percebeu que a piscina, antes esverdeada de musgo, exibia agora uma coloração púrpura. Na superfície, de bruços, um homem boiava. Júlio virou o rosto bruscamente, como se quisesse convencer alguém de que não vira nada, mas era inútil. Tinha um corpo na piscina.

E ele teria gritado, se houvesse alguma possibilidade de ser ouvido. Em vez disso, preferiu entrar o mais rápido possível no casarão. Tinha medo de ficar ali fora, exposto, porque não entendia o que tudo aquilo significava. As drogas, o álcool, o homem na piscina... Alguma coisa tinha dado muito errado naquele fim de semana.

Quando entrou, Júlio deu com sua avó de pé na cozinha, mexendo uma massa na vasilha. Ela estava com os cabelos brancos presos num coque, vestido florido e as bochechas rosadas de saúde. Nada de cadeira de rodas. Nada de AVC. Tudo estava exatamente igual ao verão de 98.

— Vó?

— Oi, querido...

Júlio estava sem reação. Queria abraçá-la e dizer o quanto a amava e sentia falta daquela voz, daquele perfume e daqueles bolinhos de chuva, mas isso lhe pareceu traição para com sua verdadeira avó. A das mãos atrofiadas e cadeira de rodas. A senil.

— Quando a senhora chegou?

— Como assim, Júlio? Essa é a minha casa... — e ela disse isso com tanta convicção que ele achou melhor não retrucar — O que você tem, meu filho? Que cara é essa?

— A senhora viu a piscina?

— Vi. — ela ficou na ponta dos pés, como se quisesse enxergar a janela — Tem um homem morto.

— Fui eu, vó? — sentiu a voz embargar de arrependimento — Eu matei esse homem?

Ela largou a vasilha em cima da bancada, caminhou até o neto e afastou sua franja do olho, com misericórdia.

— Provavelmente...

Desesperado ele levava as mãos ao rosto, tentando identificar quando foi que tinha deixado esses impulsos psicóticos tomarem conta da sua alma. E repetia incansavelmente “o que foi que eu fiz?”, “o que foi que eu fiz?”, enquanto girava o corpo de um lado para o outro sem encontrar uma resposta.

— E agora? Fujo? Ligo pra polícia? Enterro o homem no quintal e finjo que nada aconteceu?

— Primeiro você precisa saber o que aconteceu...

— Eu não sei. — ele não conseguia segurar as lágrimas — Eu juro que não sei o que aconteceu, vó. Simplesmente acordei e encontrei a casa nesse estado. E vi o sangue... Mas eu não seria capaz de fazer uma coisa dessas. De matar uma pessoa. Tenho certeza disso. Eu não sei como se faz.

— Matar não é o tipo de coisa que se aprende. A vida é muito mais frágil do que parece. Não vê o meu caso? Bastou uma veia entupir e pluft! Tudo se acabou. Não sei mais falar, andar, cozinhar... Ninguém pode prever essas desgraças.

— Mas seu caso é diferente. Ninguém enfiou uma faca na senhora.

— Isso é só um detalhe.

Júlio olhou para o crucifixo na parede e achou que deveria pedir perdão. Ajoelhou, com o rosto vermelho, e mostrou as lágrimas pra Cristo. Pra que Ele visse o arrependimento escorrendo e fosse misericordioso. Enquanto ele orava, sua avó deixou a cozinha e veio sentar ao seu lado.

— Deita aqui no colo da vó... — não era muito digno um homem de 18 anos deitar no colo de sua avó, mas ele estava cansado demais para recusar o cafuné. E ficaram os dois ali, sentados embaixo do crucifixo, de frente pra parede, de costas pro defunto. De um lado Jesus Cristo, do outro um homicídio.

— Lembro que seu cabelo era todo cacheadinho quando você era pequeno. Era a coisa mais linda, seus cachinhos castanhos. — pausa longa e desconcertante — Pra onde eles foram? — ela passava a mão delicada pelo cabelo do neto, hora ou outra limpando uma lágrima. De repente mudou o tom. — Pra que tudo isso, Júlio? Todo esse álcool, esses comprimidos...

— Não tenho uma justificativa boa o bastante pra isso. Na verdade, eu só queria distrair a razão. Fugir. Porque a realidade era desconfortável demais pra mim.

— E conseguiu?

— Algumas vezes. Mas no dia seguinte, pela manhã, ela sempre voltava. A realidade. E quase sempre acompanhada de vergonha e culpa.

— Você era um menino brilhante. Inteligentíssimo! E lindo! Ninguém era capaz de encontrar um defeito.

— Acho que eu não soube crescer. Só isso. Eu sempre tive alguma coisa aqui dentro, alguma coisa muito grande, como um berro. Mas sempre tapavam minha boca. E eu nunca consegui realmente berrar... Sei lá. Segurar um grito assim, tão alto, deve fazer mal pro fígado.

— Você tem alma de poeta, meu filho. Sempre teve. E gente assim não consegue viver muito tempo. A não ser que se esconda e vá se abafando. De qualquer outro jeito, a tendência é sempre essa. O desamparo. Porque esse não é um mundo pra vocês.

— Mas eu sempre tive tudo. Nunca precisei ficar sozinho.

— Não era suficiente. E não culpe sua mãe... As pessoas não sabem como amparar alguém assim. Tenho certeza que ela fez o possível.

— Eu sei. Ela foi maravilhosa, sempre. Eu é que fiz tudo errado... Fui longe demais.

— É muito difícil saber a hora de parar.

— Mas e agora? E o homem na piscina? O que eu faço com ele?

— Deixa que descanse.

Júlio levantou e limpou o rosto na camiseta. Esperou sua avó ficar de pé e lhe deu um último abraço.

— Obrigado por entender.

Caminhou até a piscina mais uma vez e ficou observando o corpo flutuar, com toda a leveza do mundo. E quis ver o rosto do homem, pra saber como são os olhos de alguém que já não está.

Sentiu a água gelada tocando a ponta dos dedos, alcançou a camisa do morto e puxou com força até conseguir tirar o corpo inteiro da água. Percebeu no pulso, dois cortes profundos. A água rosada criou uma poça e Júlio virou o pescoço do homem com carinho. Primeiro pensou estar vendo seu pai ou irmão mais velho, mas logo reconheceu ali seu próprio rosto. Era ele o homem na piscina. Sempre foi. E Júlio se sentiu aliviado. E se achou bonito, com os olhos fechados.

Dentro da casa, os bolinhos de chuva ficavam prontos.